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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

V - Prática
Conclusão

(...) nós reconhecemos a existência de seres superiores, pelo menos de um certo estado superior do ser, nós acreditamos nos oráculos, nos presságios, nas interpretações dos sonhos, na reencarnação. Mas essas crenças, que para nós são uma certeza, não tentamos, de maneira alguma, impô-las às pessoas. Repito: não queremos converter. O Budismo se atém acima de tudo aos fatos. Ele é uma experiência, e até mesmo uma experiência pessoal. Lembre-se das tão famosas palavras de Shakyamuni: "Espere tudo de você mesmo". XIV Dalai Lama (A Força do Budismo)
Deixando-se de lado as questões metafisicas, que para o Budismo não são essenciais, as duas doutrinas - os dois caminhos espirituais - são extraordinariamente afins.
Um Budista e um Espírita trocando idéias perceberiam rapidamente que concordam no essencial, nos meios para tornar o homem livre de sofrimentos, e que as discordâncias de detalhes tem mais a ver com visões culturais diferentes do que propriamente com a "essência" dos ensinamentos.
Para o Espírita a psicologia budista traz ensinamentos valiosos e para o Budista os conhecimentos cientificos espíritas lhe permitiriam estender sua compreensão de como o fluxo de consciência "não-material" atua sobre o mundo material. Por exemplo, no estudo da lei de Causa e Efeito, juntar os enfoques diferentes - a ciência Espírita com a atuação do perispírito e o Budismo com o funcionamento da mente - abriria novas perspectivas.
Um exemplo de um trabalho bastante interessante, unindo os enfoques Budista e Espírita, é o livro "Plenitude", do espírito Joanna de Ângelis, psicografado pelo médium Divaldo Pereira Franco. Neste livro, a autora aborda o problema do sofrimento, sua existência, suas causas e forma de eliminação. É um estudo bastante criterioso e consistente, onde conceitos milenares do Budismo integrados aos conhecimentos Espíritas fornecem o ferramental adequado para aprofundar o tema e dar-lhe solução.
Tanto o Espiritismo como o Budismo dão pouco valor ao proselitismo (a busca de conversões) e enfatizam o respeito a todas as tradições religiosas, assim não há fontes de conflito ou empecilhos maiores a troca de idéias e ao dialogo.

VI - Anexos

Para conhecer melhor as doutrinas discutidas neste artigo

"Não acredite em nada apenas por ter ouvido.
Não acredite nas tradições apenas por terem sido transmitidas através de inúmeras gerações.
Não acredite em nada apenas porque é dito e pregado por muitos.
Não acredite em nada apenas porque está escrito em livros religiosos.
Não acredite em nada apenas baseado na autoridade de um mestre ou sábio.
Mas depois de muita observação e análise, quando chegar à conclusão de que algo é razoável, e que conduz à felicidade e ao benefício seu e de todos, então aceite, e viva à altura do ensinamento." - Buda, citação no livro "O Despertar do Buda Interior" do Lama Surya Das (ed. Rocco).


- Budismo


Recomendo, além dos livros de Tenzin Gyatso, o XIV Dalai Lama, os livros "O Monge e o Filósofo" e "O Despertar do Buda Interior". O "Dhammapada" por outro lado é uma leitura obrigatória para se ter uma idéia da essência dos ensinamentos morais de Buda;
Apenas como curiosidade, os livros "O Monge e o Filósofo" e "A Força do Budismo" (vide bibliografia) tiveram participação de autores franceses e uma observação que salta a vista do leitor espírita é o desconhecimento deles com relação ao Espiritismo (que teve seu nascimento na França, com as obras de Allan Kardec ). Também espanta, para o leitor brasileito, perceber o quanto o materialismo está impregnado no pensamento desses autores. A posição parece refletir uma realidade bastante diferente do ambiente intelectual brasileiro, onde a religiosidade natural do povo brasileiro e a crescente influência do Espiritismo e de outras correntes espiritualistas, tornam o materialismo militante uma exceção.
Devido ao materialismo destes autores, a visão que apresentam da espiritualidade ocidental, nos diálogos com o Dalai Lama e com o Monge Budista, é bastante superficial - praticamente restrita ao Catolicismo - e assim deixam de abordar questões e aprofundar comparações que seriam de extrema valia para o pensador Espírita. Por exemplo, na questão da reencarnação apresentam um desconhecimento tão grande - mesmo das recentes pesquisas com a terapia de vidas passadas, efetuadas pelos psicólogos norte-americanos - que é dificil para seus interlocutores explicar com maiores detalhes a visão Budista.


- Espiritismo


Sem duvida os livros de Allan Kardec, principalmente "O Livro dos Espíritos", o "Livro dos Médiuns" e o "Evangelho Segundo o Espiritismo", também recomendo os livros de Léon Denis, principalmente "No Invisível". A partir desta base há excelentes obras complementares, entre elas as psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier - impossivel deixar de citar "O Consolador" do espírito Emmanuel e "Nosso Lar" de André Luiz.
Uma Homenagem à Francisco Cândido Xavier

"Sempre que eu interagir com alguém,
Que eu me veja como o menos importante de todos,
E, das profundezas do meu coração,
Respeitosamente considere os outros superiores."
A segunda das oito estrofes de Geshe Langri Thangpa sobre a transformação da mente.
("Transformando a Mente", Dalai Lama, Ed. Martins Fonte)
Pode parecer estranho encerrar uma série de artigos, que comparam as Doutrinas Budista e Espírita, com uma homenagem a um médium, mesmo que seja um médium tão extraordinário como Francisco Cândido Xavier. O motivo desta opção foi a de que Chico Xavier ilustra de forma extremamente clara as afinidades entre o Espiritismo e o Budismo.

Chico, independentemente de suas faculdades mediunicas, foi um ser humano impressionante. Nele as virtudes cristãs, que são a base moral da Doutrina Espírita, encontraram sua vivência completa. Ele foi um mensageiro do qual se pode dizer que, não só transmitiu fielmente a mensagem espírita, como se transformou na própria mensagem.

Similarmente, se olharmos Francisco Cândido Xavier com os olhos de um Budista, veremos nele a encarnação perfeita das virtudes ensinadas por Siddharta Gautama, na sua compaixão ilimitada para com todos os seres sencientes. Chico Xavier é um Bodhisattva na mais completa acepção deste termo, um ser iluminado, que para libertar-nos do sofrimento, veio nos trazer a verdade libertadora da prática incondicional do bem.

Fica portanto, como fechamento destes artigos, nossa profunda homenagem e gratidão ao "Mineiro do Século":

Francisco Cândido Xavier
02/04/1910 - 30/06/2002