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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

IV - Questões Filosóficas
Atitude Perante a Fé

- Budismo


"Exatamente como as pessoas verificam a pureza do ouro queimando-o no fogo, cortando-o e o examinando numa pedra de toque, da mesma forma, ó monges, deveis aceitar minhas palavras depois de submetê-las a um exame crítico e não por reverência a mim" Buda, citado pelo Dalai Lama no livro "Transformando a Mente" (ed. Martins Fontes).
"Sua fé deve ser racional, baseada na inteligência, para que quando as pessoas questionarem e tentarem refutar sua crença e prática você esteja apto a sustentar seus argumentos; não pode cultivar uma fé cega. Por isso, deve basear sua crença em um alicerce firme. Com inteligência, você estará invulnerável a questionamentos. Do contrário, como dizem os mestres Kadampa, "a fé isoladamente é como um cego, que pode ser levado por outra pessoa a qualquer lugar se lhe faltar sabedoria". Assim, a fé sustentada pelo conhecimento é indispensável à prática budista, enquanto que crença e compaixão exercidas isoladamente são características comuns a todas as principais religiões. Por isso, cultivando fé com base no alicerce correto, você será racional e firme". Dalai Lama, cap. Principais meditações Lamrim, O Caminho da Felicidade (ed. Agir).
A doutrina Budista fundamenta-se em constatações feitas por Buda, que podem ser verificadas por qualquer pessoa. Naturalmente o esforço de verificação exige longo trabalho de preparação interior - pois o campo de pesquisas é a própria mente humana e tem por ferramenta a meditação. Com uso da meditação, o homem pode estudar a si mesmo e os seus processos mentais, desfazendo os enganos que o prendem a ignorância e ao mesmo tempo transformando-se para atingir a iluminação.
Do ponto de vista Budista, a meditação é uma disciplina espiritual que permite controle sobre nossos pensamentos e emoções. Sob controle eles podem ser analisados e selecionados. Podem ser focados em objetivos determinados, levando a uma observação mais cuidadosa e profunda. Basicamente há a meditação "shamatha" - permanência serena - que mantém a concentração da atenção em um só objeto e a meditação "vipasyana" - discernimento penetrante - em que além da simples concentração da atenção, há o esforço do racioncínio em compreender o objeto da meditação.
A importância da meditação e da transformação mental é tão grande no Budismo que este desenvolveu uma psicologia bastante interessante, com profundos conhecimentos sobre os processos mentais, sua relação com as leis de causa e efeito e com a situação do ser no mundo espiritual.
Além da verificação direta e da dedução, o Budismo também reconhece como critério de verdade o testemunho - ou os ensinamentos - de pessoas fidedignas. Neste caso, o que torna estas pessoas fidedignas não é o seu conhecimento ou suas palavras, mas sim sua vivência da doutrina. Mestres espirituais que através de anos de estudo e de prática dos ensinamentos de Buda atingiram as experiências de que dão testemunho.
O Budismo não desconhece os fenômenos mediunicos, que até acabam ocorrendo como conseqüência das práticas de meditação, mas devido a seu enfoque na iluminação pelo fim da ilusão do "eu", na auto-análise, nos fenômenos interiores, não os faz objeto de seu estudo.

- Espiritismo


"Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as pocas da humanidade", Allan Kardec, Evangelho Segundo o Espiritismo, FEB.
"Na dúvida, abstém-te, diz um de vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejetai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça. Entretanto, se rejeitai hoje certas verdades, porque não estão para vós clara e logicamente demonstradas, logo um fato chocante ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade". Erasto, Influência moral do médium, O Livro dos Médiuns, FEB.
A ciência espírita se baseia necessariamente na existência dos espíritos e sua intervenção no mundo material. A verificação destas bases é feita pelo estudo das manifestações dos espíritos através dos fenômenos mediunicos. Estas manifestações podem ser espontâneas ou provocadas. O que caracteriza a manifestação dos espíritos, frente a grande quantidade de fenômenos fisicos existentes, é a vontade independente e a inteligência que demonstram.
O estudo das manifestações dos espíritos, longe de ser um campo fácil de investigação, exige grande observação e estudo, pois se lida com seres independentes e não forças cegas da natureza. Como os fenômenos normalmente não são reprodutiveis a vontade em um laboratório, há que se dedicar a anlisâ-los quando ocorrem e considerar sempre seu conjunto.
Como, em essência, o homem é um espírito encarnado, existem também fenômenos provocados pelo próprio "médium", classificados sob a denominação de animismo, e que devem receber uma grande atenção para não serem confundidos com as comunicações dos espíritos e levarem a caminhos errados. O inconsciente, e suas manifestações na personalidade, são também fenômenos animicos e nesta categoria são estudados pelo Espiritismo desde o seu surgimento.
O estudo das manifestações dos Espíritos, além do objetivo de comprovação cientifica das bases da Doutrina, também tem o escopo de aprofundar os conhecimentos sobre o Espírito, sua situação no mundo espiritual, as leis que regem seu destino e as que regem a comunicação entre o mundo material e o espiritual. Este estudo também acompanha o avanço das ciências, de modo que o Espiritismo esteja sempre a par dos progressos realizados nos demais campos do conhecimento humano.
Partindo da base fornecida pelas manifestações dos espíritos, o Espiritismo também estuda as comunicações obtidas através delas. Assim pode se dizer que a "Ciência Espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral; a outra, filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Quem quer que tenha observado somente pelo ângulo da primeira, está na posição daquele que conheceria a Física apenas pelas experiências recreativas, sem haver penetrado no fundamento da Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos e os conhecimentos que esse ensinamento comporta são muito sérios para poderem ser assimilados de outro modo que não seja por um estudo profundo e contínuo, feito no silêncio e no recolhimento; porque só nestas condições se pode observar um número infinito de fatos e de nuanças que escapam ao observador superficial e permitem firmar uma opinião" (Allan Kardec, Introdução ao "Livro dos Espíritos", FEB).
Um aspecto a ser comentado, é que o avanço de algumas disciplinas cientificas acadêmicas rumo as realidades espirituais as tem colocado em relação próxima com o Espiritismo. Assim é comum encontrarem-se Espíritas contribibuindo diretamente nas áreas de psicologia, com a Psicologia Transpessoal e a Terapia de Vidas Passadas, e de medicina, com a psicossomática e a homeopatia.


- Análise


Me parece que o Budismo e o Espiritismo avançam para resultados muito semelhantes tendo dois pontos diferentes de partida. Enquanto o Budismo - dentro de um contexto cultural oriental - parte dos fenômenos internos ao individuo em direção a realidade que lhe transcende, o Espiritismo parte das manifestações dos espíritos, do mesmo individuo liberto da matéria, em direção a mesma realidade. As duas Doutrinas rejeitam a fé cega e enfatizam a necessidade do estudo prolongado e sério. Não basta só procurar, há que se saber como ...