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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

IV - Questões Filosóficas
Responsabilidade Frente ao Destino

- Budismo

Os fenômenos mentais têm como precursora a mente,
fundam-se na mente, são feitas da mente;
Se um homem fala ou age com mente corrupta,
Em conseqüência sofrimento o segue, como a roda
nos passos do boi (que puxa a carroça).
Os fenômenos mentais têm como precursora a mente,
fundam-se na mente, são feitas da mente;
Se um homem fala ou age com mente pura,
Em conseqüência felicidade o segue, como a sombra,
que não vai embora.
Os versos gêmeos, Dhammapada (trad. Nissim Cohen, ed. Palas Athena)
O homem é totalmente responsável por seu destino. Tudo o que lhe ocorre é devido a lei de causa e efeito e ele tem o livre arbitrio relativo (condicionado por seu carma passado, que o coloca em uma situação mais ou menos dificil no presente) para agir e mudar seu futuro. Não há graça divina ou intervenção de um criador no destino individual de cada um.
Grupos sociais - por serem formados de individuos com atuação em comum, portanto com compromissos similares com a lei de causa e efeito - também tem o seu "karma" coletivo. Da mesma maneira que com o individuo, um grupo social é totalmente responsável por seu destino, pois o que lhe ocorre é conseqüência dos atos de seus menbros.
Importante notar que o ser - no ciclo de reencarnações - pode nascer como qualquer criatura sensciente. Não há nada que impeça que um homem renasça em um animal e vice-versa, se os seus atos o levarem a tal condição.


- Espiritismo


"O nosso estado psíquico é obra nossa. O grau de percepção, de compreensão, que possuimos, é o fruto de nossos esforços prolongados. Fomos nós que o fizemos ao percorrer o ciclo imenso de sucessivas existências. O nosso invólucro fluídico, sutil ou grosseiro, radiante ou obscuro, representa o nosso valor exato e a soma de nossas aquisições. Os nossos atos e pensamentos pertinazes, a tensão de nossa vontade em determinado sentido, todas as volições do nosso ser mental, repercutem no perispírito e, conforme sua natureza, inferior ou elevada, generosa ou vil, assim dilatam, purificam ou tornam grosseira a sua substância. Daí resulta que, pela constante orientação de nossas idéias e aspirações, de nossos apetites e procedimentos em um sentido ou noutro, pouco a pouco fabricamos um envoltório sutil, recamado de belas e nobres imagens, acessível às mais delicadas sensações, ou um sombrio domicílio, uma lôbrega prisão, em que, depois da morte, a alma restringida em suas percepções, se encontra sepultada como num túmulo. Assim cria o homem para si mesmo o bem ou o mal, a alegria ou o sofrimento. Dia a dia, lentamente, edifica ele seu destino. Em si mesmo está gravada sua obra, visível para todos no Além. É por esse admirável mecanismo das coisas, simples e grandioso ao mesmo tempo, que se executa, nos seres e no mundo, a lei da casualidade ou de conseqüência dos atos, que outra não é senão o cumprimento da justiça " Léon Denis, O Espírito e sua forma, No Invisível - FEB
O homem é totalmente responsável por seu destino. Além da lei de causa e efeito, há outras leis morais, entre elas a do progresso. Assim nosso livre arbitrio é relativo, limitado por nosso carma passado, pelo nosso "estágio" de desenvolvimento e pelas nossas necessidades educativas.
Durante o período em que o ser necessita do ciclo de reencarnações, para sua evolução, há uma linha crescente de sofisticação dos corpos físicos utilizados para sua manifestação no mundo material, através dos renascimentos. O Espírito sempre evoluiu dos seres mais simples para os mais complexos e, embora possa estacionar temporariamente em um dos estágios, jamais regride. Assim, ao longo dos milênios, o vegetal se tornará animal, o animal evoluirá até atingir o estágio de ser humano, e o ser humano evoluirá até conseguir se tornar espírito puro, livre da necessidade da reencarnação. A evolução do espírito, significa também a evolução do seu perispírito, cada vez mais sutíl e apto a servir de intermediário na ligação com corpos fisicos mais sofisticados. A reencarnação de um espírito que já atingiu o estágio da humanidade em um animal seria impossivel devido a própria incompatibilidade do períspirito.
O ser humano compartilha a mesma natureza espiritual dos demais seres sencientes, é diferente destes apenas por ser "mais velho" na jornada evolutiva. Seu espírito aprendeu as primeiras lições de vida - desenvolvendo os automatismos - nos vegetais, depois aprendeu as sensações e os instintos no mundo animal e, agora, na condição humana, tem como desafio aprender a usar a inteligência, a emoção e a intuição.
A caminhada evolutiva, apesar de conquista individual de cada ser, pode ser feita em grupos afins (tal qual nas escolas há grupos de alunos que seguem juntos por diversas classes), com o amparo mutuo. Familias, nações e mundos são grupos de individuos afins. Estes grupos sociais estão sujeitos a compromissos comuns com a lei de causa e efeito. Compromissos que são conseqüência da atuação coletiva de seus membros ou das necessidades de aprendizado compartilhadas por eles.


- Análise


Tanto o Budismo como o Espiritismo postulam a responsabilidade do homem, individualmente ou como membro de um grupo social, perante seu destino.
Deve-se notar que há uma interessante diferença na amplitude aceita para os efeitos dos atos realizados pelo ser em sua existência. Para o Budismo, em conseqüência de seus atos, o ser pode renascer entre os reinos inferiores da natureza, mesmo depois de ter atingido a condição de ser humano. Para o Espiritismo, por seus atos o espírito pode estacionar, mas nunca regredir na escala evolutiva.
Para a filosofia espírita, a evolução tem componentes morais e intelectuais. Nem sempre os dois são desenvolvidos pelo espírito no mesmo ritmo e isso pode resultar em ações que parecem incompatíveis com a situação aparente em que ele se encontra, mas que na realidade são manifestações de imperfeições ainda não superadas.