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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

IV - Questões Filosóficas
Concepção deste Mundo

- Budismo


"(...) convém esclarecer que a verdade do sofrimento, enunciada pelo Buda em seu primeiro sermão, pertence à verdade relativa e não descreve a natureza última das coisas, pois aquele que atinge a realização espiritual goza de uma felicidade inalterável e percebe a pureza infinita dos fenômenos: nele, todas as causas de sofrimento desapareceram. Então, por que destacar tanto o sofrimento ? Para tomar consciência, em um primeiro momento, das imperfeições do mundo condicionado. Neste mundo da ignorância, os sofrimentos se acrescentam uns aos outros: um de nossos pais morre, o outro o segue algumas semanas depois. As alegrias efêmeras se transformam em tormentos: parte-se para um alegre piquinique em família e nosso filho é picado por uma cobra. A reflexão sobre a dor, portanto, deve nos incitar a tomar o caminho do conhecimento. (...) " Matthieu Ricard, Ação sobre o mundo e ação sobre sí mesmo, O Monge e o Filósofo, Ed. Mandarim
A ilusão de um "eu" individual leva ao egoismo e a considerar as coisas deste mundo como permanentes. Este apego leva ao sofrimento. O homem deve libertar-se dessa ignorância, compreender que tudo é impermanente (transitório) e aí terá atingido a felicidade.
O ser que age para se libertar da ignorância, seguindo as regras do caminho óctuplo, vive longe dos extremos - nem o ascetismo exagerado, muito menos o apego desmesurado aos bens materiais - daí a expressão "caminho do meio". Pelo ideal do Bodhisattva, há a valorização do esforço para melhorar o mundo e trazer a felicidade para todos. O Budista deve sempre agir para diminuir o sofrimento, onde e da maneira que lhe for possível.

- Espiritismo


"172 - Todas as nossas diferentes existências realizam-se na Terra ? Não, vivemo-las nos diferentes mundos: as da Terra não são as primeiras nem as últimas, porém das mais materializadas e distantes da perfeição.
173 - A cada nova existência corporal a alma passa de um mundo a outro ou lhe é possivel viver muitas vidas no mesmo planeta ? Pode reviver várias vezes no mesmo planeta, se não estiver suficientemente avançada para passar a um mundo superior." O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.
O mundo material é transitório, temos uma percepção limitada da realidade devido as nossas limitações de entendimento e de percepção. Como o mundo fisico é uma escola na jornada evolutiva do ser, e as vissitudes da vida material desafios para o espírto, o verdadeiro espírita deve sempre procurar melhorar a sí mesmo e, consequentemente, melhorar também seu modo de agir no mundo. Assim, pela lei de caridade e pela prática da sabedoria, o espírita deve sempre procurar melhorar a situação de seu próximo e da sociedade em que vive. O Espiritismo não aprova os extremos, nem o ascetismo exagerado nem o apego aos bens materias. Somos depositários temporários dos bens deste mundo e devemos emprega-los do melhor modo possível para o bem de todos.


- Análise


A primeira vista, em um estudo superficial, o Budismo parece ter uma visão pessimista deste mundo, por sua aguda percepção do sofrimento e de suas causas. Isso porém não corresponde a realidade, pois faz parte das bases doutrinarias do Budismo a conscientização de que é possivel superar-se o sofrimento e agir de tal modo que se possa ter um razoavel grau de felicidade já nesta vida. Desta maneira, a concepção do mundo - e consequentemente da ação do homem no mundo - valoriza o esforço no sentido do bem e do progresso.
O Espiritismo por outro lado, valoriza imensamente as oportunidades de aprendizado oferecidas por este mundo material, enfatizando que o correto agir, conforme as leis morais, resulta não só no progresso individual como no coletivo. Para o Espiritismo ainda estamos a caminho da verdadeira civilização, onde as leis de amor e de justiça serão aplicadas em sua verdadeira extensão. Para que esta civilização seja atingida, precisamos nós todos nos empenharmos no esforço de reforma interior e consquente mudança de comportamento.
Uma vez que se compreenda que somos espíritos, temporariamente reencarnados em um corpo material com finalidades educativas e que tudo neste mundo é transitório, se tem uma nova visão do mundo e pode se atingir a felicidade relativa que nosso nivel de progresso permite. A verdadeira felicidade só é atingida com o progresso do espírito e sua depuração de todas suas imperfeições.
O fim do egoismo, almejado tanto pelo Budismo, como pelo Espiritismo, transformam o individuo e o mundo ao seu redor. Não há o apelo para o abandono da ação no mundo, mas o redirecionamento desta ação. O melhor exemplo dentro do Budismo é o próprio Dalai Lama, em seu trabalho incansável - e pacifico, conforme as diretrizes de Buda - em prol de seu povo.