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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

IV - Questões Filosóficas
O Homem em sua Essência

- Budismo


A percepção que o homem tem de sí mesmo, como de um individuo distinto dos demais e com uma individualidade permanente, é uma ilusão. O que entendemos como nosso "eu" é na realidade um conjunto de circunstâncias e de agregados temporários que, na ignorância, tomamos por um todo único. Estes componentes, conhecidos tecnicamente no Budismo como "skandas", são cinco:
- O corpo;
- Os sentimentos;
- As percepções;
- Os impulsos e emoções;
- Os atos de consciência;
A combinação destes fatores se dá através das leis de causa e efeito e eles ocorrem não só no mundo material, como também nos mundos espirituais. O corpo sutil, espiritual, também é temporário e, do mesmo modo que o fisico, um elemento sujeito as vissitudes da lei de causa e efeito. O individuo, portanto, em sua essência, não corresponde a uma entidade isolada, eterna, mas pode-se falar de uma consciência individual - sem uma base física, como a entendemos - que é o sujeito da lei de causa e efeito e, este sim, eterno. Matthieu Ricard - no livro "O Monge e o Filósofo" - se refere a esta consciência individual como um "fluxo de consciência". A este fluxo de consciência, como resultado de suas ações se agregam os cinco "skandas", resultando no ser material ou espiritual. A libertação espiritual é descrita por Matthieu como a purificação deste fluxo até o ponto de sua pureza máxima.
O ser que atinge a iluminação no Budismo, pelo menos no Tibetano, não deixa de existir, mas sua existência não está mais sujeita ao ciclo de reencarnações ou presa as leis de causa e efeito[1]. Completamente livre de todos os fatores que o prendem a um corpo perecivel, seja nos mundos materiais, seja nos mundos sutis - pois o Budismo também reconhece diferentes niveis de existência - ele goza de uma paz absoluta e da compreensão total do Universo. Sua "consciência" continua a existir - consciente de si mesma - mas sem a ilusão de que é algo independente de todas as outras consciências ou do Universo.
"O espírito junta-se então ao próprio espírito do Buda, essa substância chamada espírito sutil, sem começo nem fim, independente do corpo e do cérebro, e sem duvida a verdadeira causa da consciência. Esse espírito sutil que se manifesta, finalmente livre de todo apego, eliminou totalmente os obstáculos que se opunham à visão 'da última natureza de toda a existência' (...) "
"- Aliás - diz o Dalai Lama - Buda jamais falou do nirvana. Sim, ele indicou uma libertação dos renascimentos (o que só torna a noção compreensível para um ocidental se ele admitir como fato o encadeamento das transmigrações, o samsara), mas suas indicações param por aí. Daí uma multiplicidade de interpretações. Você me pergunta o que é o nirvana. Eu lhe respondo; uma certa qualidade do espírito". (trechos do cap. "Para uma ciência do Espírito", A Força do Budismo).


- Espiritismo


O homem é composto do corpo material, de um corpo sutil ou fluídico denominado pelo Espiritismo de "perispírito" e do principio inteligente, denominado espírito. A essência do espírito é desconhecida para nós, por nos faltarem conceitos e percepções suficientes para entendê-lo.
O Espírito é criado por Deus simples e ignorante[2], ao longo de sua evolução se utiliza do "perispírito", para poder atuar nos mundos materiais, que lhe servem de estágio para o aprendizado e exercicío de suas capacidades. O perispírito se modifica conforme o nivel de evolução do ser e do mundo em que se encontra. O perispirito desempenha papel importante como intermediário entre o espírito e a matéria, sendo determinante na formação do corpo fisico quando do processo de reencarnação (interferindo, selecionando, dirigindo, complementando o código genético).
- Análise
"O fluxo de consciência é uma sorte de metáfora não distante daquela outra: o Espírito é uma centelha"
Elzio Ferreira de Souza, trecho de e-mail sobre a questão da essência do ser.
A questão do ser humano em sua essência é bastante dificil de ser analizada, o Budismo procura desvincular a essência do ser de um ente individual e chega a imagens bastante abstratas. A melhor comparação que vi, foi a de considerar o ser como uma "onda de consciência" no infinito. Tal qual as ondas de luz, que sem um suporte material individual, assim mesmo se propagam por seus caminhos próprios no imenso oceano eletromagnético que é o espaço.
Esta "onda de consciência" - elo não material que liga todas as existências do ser, dando consistência a uma lei de causa de efeito - é que serve de "guia" a combinação dos componentes que formam o ser, resultando em um corpo sutil e, quando necessário, um corpo material. Ela é a base dos sentimentos, das emoções e até do pensamento. Dificil dizer exatamente quais são seus atributos, principalmente depois de atingido o Nirvana, mas me parece que se poderia dizer que é a inteligência pura, o espírto em seu estado mais abstrato.
Vale lembrar que para os espíritas, a palavra "espírito" significa o "elemento inteligente" do ser, ou seja, a essência mesma , a qual se agregam, para sua jornada evolutiva, o corpo espiritual - o perispiríto - e o corpo físico. No Livro dos Epíritos, o espírito é descrito como a individualização do principío inteligente e portanto é o que retém, em última instância, a individualidade do ser. Um espírito puro é esta individualidade em seu grau de perfeição e pureza máximos.
Do mesmo modo que não é possivel descrever-se exatamente o que é o ser após ter atingido sua Iluminação, também não há como descrever o que é o espírito:
"O Espírito não é fácil de analisar em sua linguagem. Para os homens não é nada, porque o Espírito não é algo palpável; mas para nós, é alguma coisa. Saibam-no bem, nenhuma coisa é o nada, e o nada não existe". (resposta a questão 23a, O Livro dos Espíritos)

Notas Explicativas
1 - "(...) Os seguidores do Vaibhashika, entendem, portanto o nirvana final em termos da total cessação do indivíduo. Deduz-se que, quando o Nirvana final é atingido, o ser individual deixa de existir.
Essa opinião não é aceita por muitas outras escolas budistas. Há, por exemplo, uma objeção muito conhecida, de autoria de Nagarjuna, que sustenta ser a conseqüência lógica da doutrina Vaibhashika a de que ninguém atinge o Nirvana, porque o indivíduo deixa de existir quando alcança o Nirvana. Portanto, esse posicionamento é absurdo. (...)" (cap. "A Transformação através do altruísmo", Transformando a Mente, XIV Dalai Lama)
2 - "Simples e ignorante, o que seria isto? A mim, parece-me que é o ponto inicial da carreira do Espirito no reino hominal, ou seja o estágio do ser no momento em que atinge o processo de hominização. Poderíamos também dizer que é o momento em que ele alcança o livre-arbítrio e descobre-se responsável: na linguagem bíblica, descobre a própria nudez. (...) Outras questões, entre as quais a 540, dá outra noção do Espírito do ponto de vista da substância. O simples e ignorância é referência ética." Elzio Ferreira de Souza, comentando em e-mail o uso desta expressão no artigo.
Na atualidade, os espíritas admitem que o princípio inteligente evolui a partir das formas mais simples de existência. Nestas formas rudimentares ele começa a aprender a se relacionar com a matéria e aos poucos vai assenhorando-se da capacidade de organizar corpos mas complexos, começa talvez pelas bactérias e seres unicelulares; de seres unicelulares progride aos vegetais; dos vegetais aos primeiros animais; destes animais simples aos animais superiores, dotados de instintos desenvolvidos e rudimentos de inteligência; dos animais mais inteligentes aos primatas ancestrais do homem; dos primatas ao homem moderno. Milênios infindáveis de evolução, nos dois planos de existência - material e espiritual - e em quantos mundos forem necessários.
Durante esta evolução o desenvolvimento do perispírito acompanha a complexidade dos organismos, influenciando o processo de reencarnação e sendo por ele influenciado. É um dos mecanismos por detrás do processo de seleção natural e de evolução das espécies, estudado pelo seu lado puramente material por Charles Darwin.
O livro "The Origin of the Species", de Darwin, que consagrou cientificamente a teoria da evolução biológica das espécies, foi publicado em novembro de 1859, depois do "O Livro dos Espíritos" e provocou um grande abalo na opinião publica. A resistência enfretada pelas novas teorias, principalmente no tocante a descendência biológica do homem a partir dos primatas, permite entender a cautela com que os Espíritos trataram a questão da evolução espiritual na época de Kardec. Assim restringiram-se a detalhar o progresso do Espírito a partir do momento em que, atingido o estágio humano, ele sem maiores conhecimentos do bem e do mal - simples e ignorante - começa a exercer escolhas que determinaram seu passo rumo ao futuro.
Desta maneira, a expressão "simples e ignorante" pode assim ser entendida, como comentou o Elzio, como uma descrição qualitativa do estado do espírito no início do seu processo de desenvolvimento humano, quando cruzou a fronteira entre o animal e o homem. Também pode ser entendido, e neste sentido utilizei no texto, como o "simples" das formas primitivas de vida e o "ignorante" da ausência completa de qualquer sofisticação da inteligência - seja na forma de controle da organização biológica, seja instintos seja a "inteligência" humana propriamente dita.
É um grande mistério o início desta escala de evolução, pois como os espíritos disseram ao final da resposta para a questão 450, citada pelo Elzio, "é assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que seus Espíritos limitados não podem abranger o conjunto". Tal resposta deixa entrever a possibilidade de que por detrás da organização da matéria, da energia tão bem estruturada em particulas elementares sob as leis da natureza, possa já estar atuando o principío inteligente em seus primórdios. Na mesma linha de raciocinio, Ernesto Bozanno, cita em seu livro "Os Animais tem Alma", um pequeno trecho de uma obra mediunica:
O gás se mineraliza,
O mineral se vegetaliza,
O vegetal se humaniza,
O homem se diviniza.
(Old Truth in New Light, Lady Cathness)
Por toda a linha de evolução, o processo é progressivo. Um espírito que atingiu o nivel evolutivo suficiente para nascer no reino animal, não tem mais necessidade ou possibilidade de nascer em um vegetal. Da mesma maneira, o espírito que atingiu o nivel dos primeiros primatas não volta ao animal. Finalmente, o homem moderno não teria como reencarnar no Australopitéco. A própria sofisticação do perispírito - definido por Hernani Guimarães Andrade como um modelo organizador biológico (vide seu livro Espírito, Perispírito e Alma), por conduzir os processos reencarnatórios, selecionando a bagagem genética e integrando-a as necessidades karmicas do espírito - tornaria impossivel tal reencarnação. O "homo sapiens" de nossos dias, só pode reencarnar como "homo sapiens", ou, caso tenha a necessidade de reencarnar em outros mundos, em um ser com uma organização nervosa equivalente em sofisticação. Mesmo em um desterro a mundo mais atrasado, o ser até nasceria em um hominídio primitivo culturalmente, mais ainda assim, que reunisse as condições nervosas necessárias.
Esta posição filosófica - distinta da adotada pela metempsicose grega e pelo Budismo - de que o ser humano sempre reencarna como ser humano, justifica as respostas dos Espíritos as questões 592 a 610 (Os animais e o homem), em que apresentam os animais como seres distintos dos homens. Estas questões, que levaram muitos espíritas a negar a continuidade espiritual entre os reinos da natureza, podem ser entendidas perfeitamente se considerada também a resposta a questão 611:
"Duas coisas podem ter uma mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe contido na semente de onde saíram ? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não há mais relação com seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, há somente de animal o corpo, as paixões que nascem da influência do corpo e o instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode dizer, portanto, que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal; logo a metempsicose, tal como a entendem, não é exata."
Apesar da clareza desta resposta, foram necessários muitos anos para que se formasse o consenso em torno da questão. Pouco depois da época de Kardec, eminentes pesquisadores como Ernesto Bozzano (vide seu livro "Os Animais tem alma ?") e Gabriel Delanne, (vide seu livro "A reencarnação") apresentaram provas inquestionaveis de que os animais tinham alma (espírito encarnado), que sobrevive a desencarnação tal qual a alma humana. Mais ainda, da mesma maneira, reencarnam e evoluem segundo as mesmas leis do progresso e de ação e reação.
Nas últimas décadas, principalmente com a obra mediunica de Francisco Cândido Xavier - veja-se, por exemplo, o livro "Evolução em Dois Mundos" do espírito André Luiz - a resistência a idéia praticamente desapareceu e hoje já é amplamente aceito que não há seres privilegiados na criação.
"Evolução no Tempo: É assim que dos organismos monocelulares aos organismos complexos, em que a inteligência disciplina as células, colocando-as a seu serviço, o ser viaja no rumo da elevada destinação que lhe foi traçada do Plano Superior, tecendo com os fios da experiência a túnica da própria exteriorização, segundo o molde mental que traz consigo, dentro das leis de ação, reação e renovação em que mecaniza as próprias aquisições, desde o estímulo nervoso à defensiva imunológica, construindo o centro coronário, no próprio cérebro, através da reflexão automática de sensações e impressões, em milhões e milhões de anos, pelo qual, com o Auxílio das Potências Sublimes que lhe orientam a marcha, configura os demais centros energéticos do mundo íntimo, fizando-os na tessitura da própria alma.
Contudo, para alcanzar a idade da razão, com o título de homem, dotado de raciocínio e discernimento, o ser, automatizado em seus impulsos, a romagem para o reino angélico, despendeu para chegar aos primórdios da época quaternária, em que a civilização elementar do silex denuncia algum primor de técnica, nada menos de um bilhão e meio de anos. Isso é perfeitamente verificável na desintegração natural de certos elementos radioativos na massa geológica do Globo. E entendendo-se que a Civilização aludida floresceu há mais ou menos duzentos mil anos, preparando o homem, com a benção do Cristo, para a responsabilidade, somos induzidos a reconhecer o caráter recente dos conhecimentos psicológicos, destinados a automatizar na constituição fisiopsicossomática do espírito humano as aquisições morais que lhe habilitarão a consciência terrestre a mais amplo degrau de ascensão à Consciência Cósmica" André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos.