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As Quatro Nobres Verdades
Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

Carlos Iglesia

 

III - Visão Geral (2)

 

História

 

- Budismo


Surgiu na India, em torno do V século A.C., a partir dos ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda. Sidarta deixou sua vida de principe, comovido pela descoberta do sofrimento, para dedicar-se a encontrar suas causas e como elimina-lo. Não deixou nada escrito, seus ensinamentos foram compilados por seus seguidores imediatos e transmitidos oralmente durante séculos. Passaram para a forma escrita, somente no inicio da nossa era. A longo do tempo surgiram algumas escolas de pensamento ligeiramente diferentes. Basicamente estas escolas se agrupam em duas linhas:
- Escola Theravada (Escola dos Anciãos);
- Escola Mahayana (Grande Veículo);
A diferença principal entre elas é a enfâse dada aos objetivos da salvação ou libertação do sofrimento. Enquanto na escola Theravada, mais próxima ao Budismo primitivo, a libertação é procurada como objetivo máximo e em bases individuais, a escola Mahayana coloca grande ênfase na compaixão e no esforço para a salvação de todos. Esta escola enfatiza o ideal do "Bodhisattva", que é o nome dado ao indivíduo que atingiu todos as condições necessárias para a libertação individual, mas que a retarda, para ajudar aos demais a encontrar o caminho da salvação. Ou seja, o Bodhisattava renuncia ao Nirvana por compaixão aos demais seres.
Em muitos escritos Mahayana, a escola Theravada é chamada de "Hinayana" ou "Pequeno Veículo" - veículo no sentido de meio de condução do ser para a salvação - com conotações pejorativas (por apresentar um objetivo mais restrito, de salvação individual, em comparação com o objetivo de auxiliar na salvação de outros). Desta maneira, apesar do tempo ter mitigado o sentido original, é aconselhável evitar esta designação.
Em certos aspectos, o Budismo constituiu uma resposta a problemas enfrentados pelo pensamento filosófico hindu da época de Sidarta Gautama. Principalmente a divisão da sociedade em castas e as polêmicas em torno da criação do Universo, de que papel tiveram as divindades nela ou quais as que eram as principais. De qualquer maneira, seu surgimento e desenvolvimento dentro da sociedade hindu se deu mantendo o mesmo espírito de tolerância característico da india védica.
No auge da influência Budista na India, pelo segundo século antes de Cristo, o mundo viu algo inédito e extraordinário, o governo do Rei Asoka, que se norteou pela justiça e pelo respeito a todos os seres vivos. Este rei manteve um país próspero e seguro, inclusive enviou missionários para a divulgação o Dharma em terras distantes.
A partir do continente indiano, o Budismo se expandiu pelo extremo oriente: Burma, China, Coréia, Japão, Java, Sri Lanka, Sumatra, Tailândia, Tibete, Vietnã, etc ... Com a expansão do Islã (a partir do século VIII da nossa era) e, posteriormente, com as destruições massivas pelas mongóis nas regiões que lhe constituiam o berço (século XII) , o Budismo deixou de ser representativo na India. Ele também sofreu algum recuo em regiões fortemente influenciadas pelo comércio com o Islã.
Foi por volta do ano 700 dc, que vários monges budistas chegaram ao Tibet e difundiram a escola Mahayana. O Budismo se desenvolveu consideravelmente a partir dos diversos mosteiros fundados, tornando-se o centro da vida Tibetana. Traduções dos textos antigos foram feitas para o Tibetano, desenvolveram-se novas concepções, tendo grande avanço uma terceira escola - ou "terceiro veículo" - o Veículo Adamantino, Vajrayana, que acrescenta técnicas espirituais para se atingir o desenvolvimento espiritual. A religião local, o "Bon" - uma espécie de Xamanismo, com metafisíca complexa - continuou a existir em paralelo ao Budismo e, inclusive, muitos de seus costumes se incorporaram ao Budismo Tibetano.
Com a integração do poder temporal com a estrutura de mosteiros, o seu lider espiritual, o Dalai Lama, - "mar de sabedoria" - também tornou-se o centro político do país. O atual Dalai é o XIV de uma linha - pelas crenças tibetanas é a reencarnação de seu antecessor - que já vem de alguns séculos.
O Budismo encontrou também grande progresso na China, tendo se incorporado a sua civilização, lado a lado com o Taoísmo e o Confucionismo. Foi apenas na segunda metade do século XX, nas grandes turbulências que se seguiram ao final da segunda guerra mundial, que o Budismo Chinês passou a ser marginalizado, com a implantação do comunismo por Mao Tse Tung. O estado materialista, que vê a religião como o "ópio do povo", também chegou ao Tibet com sua anexação pela China a partir de 1949.
Em seu auge, o Budismo Chinês influenciou profundamente o Japão. Em terras japonesas o Budismo Zen foi o que mais se difundiu e passou a conviver pacificamente com a religião nativa do país, o "Xintoismo". No século passado, a partir de 1930, pelo trabalho do prof. Masaharu Taniguchi, surgiu dentro do Budismo japonês um movimento, denominado "Seicho-no-ie" (Lar do Progredir Infinito), que é hoje bastante divulgado, inclusive no Brasil.
O Budismo passou a ser mais conhecido nos países ocidentais após a II Guerra Mundial, quando as tropas aliadas passaram a ter contato direto com o Budismo Zen. Posteriormente, em 1959, a ocupação chinesa no Tibete forçou a fuga de monges tibetanos para outros países. O Dalai Lama e muitos dos que o acompanharam, encontraram refugio no norte da India, dando de novo a este país um papel importante na preservação e difusão do Budismo. Desde então, Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, tem viajado frequentemente a muitos países, dando conferências e publicando livros sobre o "Dharma". Ao mesmo tempo, tem sido fundados mosteiros Budistas e cada vez mais ocidentais tem se dedicado ao estudo da doutrina.
A divulgação do Budismo no Ocidente também foi beneficiada pela crise espiritual que se tornou evidente a partir dos anos 60. Como resultado do período da "guerra fria", do medo de uma guerra nuclear, das guerras verdadeiras - tendo a do Vietnã sido a primeira amplamente coberta pela midía moderna - a juventude do mundo ocidental passou a questionar as respotas tradicionais aos problemas existênciais e a buscar novos caminhos. Foi um período histórico de transformação acelerada, não só de costumes mas da própria visão do homem dentro da sociedade, com muitos erros e acertos, cujas conseqüências ainda estamos vivendo e cuja análise mereceria um estudo bem mais profundo do que seria possivel neste artigo.


- Espiritismo


Historicamente o Espiritismo surge na França, na segunda metade do século XIX, na sequência do "Espiritualismo Moderno". Como todo movimento importante de transformação espiritual, suas raizes são bem mais antigas, podendo-se percebê-las nas especulações filosóficas do Iluminismo europeu do século XVIII e nos grandes espiritualistas do período, como o vidente suéco Swedenborg. Outro precursor desta fase histórica foi o médico vienense Mesmer, que com seu "magnetismo animal", abriu campo para o estudo de fenômenos que escapavam ao objeto costumeiro da ciência newtoniana.
A data oficial para o nascimento do novo movimento espiritualista, conhecido como "Espiritualismo Moderno" (Modern Spiritualism), é 31 de março de 1848. Nesta data aconteceu um evento extraordinário por suas implicações futuras, mas que por si só é de uma simplicidade inacreditavel: Uma menina de onze anos - Katherine Fox - teve a idéia de solicitar a um espírito, que "assombrava" a casa em que viviam, em Hydesville (EUA), que repetisse o número de batidas que ela desse. Estava inaugurada a comunicação aberta entre os dois planos da vida. Doravante a comunicação com o plano espiritual não estaria mais restrita aos iniciados em doutrinas secretas, nem aos grandes ascetas ou a mistícos extraordinários. Homens e mulheres comuns, muitas vezes jovens, como no caso de Katherine, seriam os "medianeiros" - médiuns - entre nós encarnados e os entes queridos no outro lado da vida.
As ocorrências na casa da familia Fox chamaram rapidamente a atenção da vizinhança e logo da midía da jovem democracia americana. Religiosos, cientistas e estudiosos das mais variadas especialidades se interessaram pelos fenômenos, que não conseguiam explicar pelas respostas costumeiras de mistificação ou ilusão, mais que isso, esses fenômenos começaram a se reproduzir por outros médiuns e, desde as primeiras mensagens, seus autores se identificavam como sendo os mesmos seres humanos, apenas despojados das vestes físicas - do corpo material - pelo fenômeno da morte.
As batidas nas paredes foram substituidas pelas "mesas dançantes" - mesas em que as pessoas se sentavam ao redor e que sob controle dos espíritos, levantavam-se e batiam os pés. Após as mesas dançantes vieram os lápis amarrados a cestos e a pranchetas e finalmente a comunicação direta através dos médiuns. A mediunidade passou a se revelar uma sensibilidade normal do ser humano, que pode se manifestar de diversas maneiras diferentes - pela comunicação falada (psicofônia), pela comunicação escrita (psicografia), pela vidência ou mesmo pelos eventos físicos, dos quais o mais espetacular e raro é a "materialização" completa dos espíritos.
O enorme interesse despertado pelos fenômenos mediunicos, a partir de 1848 até praticamente o final do século, contribuiu para que fossem divulgados amplamente no outro lado do Atlântico. Em todas as capitais européias se formaram grupos de estudos e surgiram médiuns cuja fama perdura até nossos dias. Entre eles se destaca Daniel Dunglas Homes, médium de efeitos fisícos, cujas demonstrações foram feitas diante das personalidades mais ilustres da época e em circunstâncias que as tornavam acima de qualquer suspeita.
Naturalmente estes fenômenos chamaram a atenção dos estudiosos e, entre eles, o educador francês Hyppolite Leon Denizard Rivail. Em suas obras, que publicou usando o pseudônimo Allan Kardec, reuniu os resultados de suas pesquisas sobre os fenômenos mediúnicos e uma acurada análise das mensagens transmitidas pelos espíritos. Elas vieram a constituir o que se convencionou chamar de "Codificação Espírita", sendo 18 de abril de 1857, data em que foi publicado em Paris o "O Livro dos Espíritos" , considerada como a de surgimento do "Espiritismo".
A "Sociedade Pariense de Estudos Espíritas", formada por Allan Kardec se tornou o modelo a partir do qual se estabeleceriam outros grupos espíritas na França e no exterior. A "Revue Spirite" - a Revista Espírita - dirigida por Kardec entre 1858 e 1869 foi, junto com os livros de Kardec, o veículo de comunicação das idéias espíritas em seus primeiros tempos.
O Espiritismo rapidamente se estendeu a outros paises europeus e a américa latina. No inicio do século XX, pioneiros já haviam criado grupos espíritas do México a Argentina, incluindo Porto Rico e Cuba. Na Europa se sobressaiam França e Espanha, onde se realizariam grandes congressos até as vesperas da Guerra Civil. No mundo de lingua inglesa, prevaleceu inicialmente a variante americana - Modern Spiritualism - caracterizada principalmente pela rejeição a idéia da reencarnação. No Brasil, o Espiritismo foi introduzido já na época de Kardec.
Com o período das grandes guerras mundiais e dos regimes autoritários[1], o Espiritismo praticamente desapareceu da Europa. Seus adeptos foram perseguidos e presos, os grupos fechados e os poucos remanescentes jogados para a clandestinidade. Durante este período, se desenvolveu consideravelmente no Brasil, tendo entre seus grandes nomes personalidades como o médico Adolfo Bezerra de Menezes e o médium Francisco Cândido Xavier. Não se pode deixar de mencionar também o excepcional médium de curas José Arigó, que através de sua abnegação - atendendo gratuitamente todos os que o procuravam - e capacidade de trabalho, atendeu milhares de doentes e tornou-se prova viva do Espiritismo para muitos dos que o procuraram. Durante fase dificil de sua vida, em que as perseguições - sob o pretexto de curandeirismo - o levaram a prisão, foi através de indulto do próprio presidente da Republica, Juscelino Kubischek, que foi libertado.
Nos últimos anos, com o final da guerra fria e o retorno a normalidade democrática em todos os paises da Europa, o Espiritismo tem retornado gradualmente a este continente. Grupos espíritas se formaram imediatamente em Portugal e na Espanha após o fim das proibições e, no resto do continente, aos poucos, superando a cultura materialista imperante após o período das guerras. Merece menção, neste grande trabalho de renascimento do Espiritismo, o esforço abnegado dos imigrantes brasileiros, que passaram não só a criar nucleos espíritas em seus países de adoção, como a apoiar os movimentos espíritas locais. Como médiuns, tradutores de obras espíritas do português para as linguas nativas, interpretes de conferêncistas e de médiuns em viagens, contribuiram significativamente suprindo as deficiências causadas nestes paises pelas turbulências do século XX. Conferêncistas brasileiros também tiveram e estão tendo papel importante nesta fase histórica. Podemos citar rapidamente, como exemplo - pois uma análise detalhada desse trabalho de divulgação, fazendo juz a todos os que participaram dele, demandaria uma série de artigos - nomes como Divaldo Pereira Franco, Miguel de Jesus Sardano e Reinaldo Leite.
Nos demais paises da América Latina, o Espiritismo vai relativamente bem, tendo enfrentado dificuldades com as revoluções e guerras civis, mas sobreviveu até mesmo em Cuba. A america latina também tem dado grande grande contribuição ao movimento espírita internacional e, da mesma forma que o Brasil, tem contribuido com médiuns, tradutores, trabalhadores e conferencistas como, por exemplo, Juan A. Durante.
Nos Estados Unidos vem se instalando gradativamente, ressentindo-se talvez mais que na Europa, do materialismo e do consumismo vigentes. Os grupos espiritualistas americanos, sucessores do "Modern Spiritualism", ainda existem, mas são bastante dispersos e cada qual seguindo seu caminho próprio, o que dificulta muito uma colaboração mais efetiva. O lado positivo é que em sua maioria já aceitam a reencarnação sem maiores restrições[2].
Pelo próprio escopo do artigo, é natural que se fique devendo aos leitores um panorama mais amplo das biografias dos grandes vultos da Doutrina Espírita. Incontáveis seriam os nomes que deveriam figurar em uma história detalhada, começando pela própria esposa de Kardec, Amélie Gabrielle Boudet, educadora como ele e sua colaboradora de todas as horas:
Léon Denis, Cammille Flammarion, Gabriel Dellane, Eusapia Palladino, Amalia Domingo Soler, Miguel Vives y Vives, Cosme Mariño, Euripides Barsanaulfo, Batuíra, Bittencourt Sampaio, Analia Franco, Caibar Schutel, Teles de Menezes, Ivone A. Pereira, Francisco Valdomiro Lorenz, Vinicius, Herculano Pires, José Gonçalves Pereira ....

Notas Explicativas

1 - Em geral pode se considerar que este período histórico começa com a primeira guerra mundial em 1914, se estende entre guerras com o estabelecimento do comunismo, do facismo e do nazismo, prossegue com a guerra civil espanhola de 1936, a grande guerra de 1945, as guerras na ásia e a guerra fria até o fim dos anos 80. Pode-se dizer que entre a primeira guerra mundial e o fim da união soviética na década de 90 o mundo viveu um período contínuo de tensão, com o consequente apego ao imediatismo materialista, mesmo porque grande parte da Europa ficou, por longo tempo, sob regimes ditatoriais e violentos.
2 - É interessante notar que a diferenciação entre "Modern Spiritualism" - Espiritualismo Moderno - é bastante sutil e na maior parte das vezes sem muita importância. Na realidade o que ocorreu foi uma lentidão na difusão das obras de Kardec nos meios espiritualistas de lingua inglesa. Essa demora foi em parte provocada pela rejeição que americanos e ingleses tinham quanto a idéia da reencarnação, em parte pela diferente visão quanto ao papel das comunicações dadas pelos espíritos. Enquanto Kardec - e os Espíritas - consideram as comunicações como meio de estudo, objeto de análises critícas e sujeitas ao critério da concordância, os espiritualistas de lingua inglesa as viam como revelações de um plano superior e os espíritos que as transmitiam, acima de suspeita por serem guias iluminados. Não só pioneiros do Espiritismo, como Léon Denis continuaram utilizando o termo "Espiritualismo Moderno", junto com "Espiritismo", como em tempos recentes Júlio Abreu Filho traduziu a obra de Connan Doyle - History of Modern Spiritualism - para o português com o titúlo de "História do Espiritismo" (Editora Pensamento). O resultado desta opção de tradução é que o leitor espírita se surpreenderá ao notar, em uma história do "Espiritismo" o pequeno espaço reservado ao trabalho de Kardec e o posicionamento do autor contrário a reencarnação, principalmente se não prestar atenção no prefácio, onde Herculano Pires alerta sobre a questão.
A propósito, o motivo que levou Kardec a criar uma nova palavra - Espiritismo - foi para evitar mal-entendidos. A designação "Moderno Espiritualismo" não é muito precisa, uma vez que espiritualista é todo aquele que crê em algo além da matéria e não necessariamente em espíritos e na sua possibilidade de comunicação conosco.