Palais RoyalDebatendo no Conselho Editorial os rumos do GEAE, não pudemos deixar de reconhecer que estamos em tempos novos. Inegavelmente a Doutrina Espírita tem representatividade social muito grande no Brasil e sua influência se faz sentir muito além do círculo de adeptos declarados.

Temas espíritas são recorrentes na mídia e as informações sobre reencarnação, a lei de causa e efeito, a busca incessante pelos espíritas da vivência de seus postulados e da prática da caridade tornaram-se já amplamente conhecidos e aos poucos, pela troca pacífica de ideias, influenciam a cultura brasileira. O próprio progresso material do Brasil como nação, se obedece a imperativos econômicos pelos quais outros povos já passaram, tem características próprias que apresentam solo propício ao desenvolvimento de uma sociedade mais madura, mais aberta a discussão da espiritualidade.

Dentro deste panorama, em que as ideias espíritas são comentadas dentro e fora dos grupos espíritas, em que os espíritas são chamados a opinar nas mais diversas circunstâncias, forçoso se faz pensar nas bases que temos para tal empreitada e de qual é o papel de um grupo de estudos espíritas como o nosso.

Parece que, mais do que defender postulados, é preciso direcionar os esforços dos nossos estudos conjuntos para entendê-los, para sabermos porque existem, de que fatos derivam sua existência e quais são as condições de sua aplicação. Quais os métodos de pesquisa adequados para as questões do espírito e como aplicá-los.

Para tanto, acreditamos que o grupo deva manter o foco no aprendizado sério, no debate de ideias, aberto a análise dos diversos pontos de vista, sem intenções de convencer ou converter ninguém, muito menos de entrar em polêmicas ou disputas pessoais. No Palais Royal ficava a livraria onde foi lançada a primeira edição do Livro dos Espíritos e lá também começou a funcionar em 1858 a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

Caminhando desta forma, mantendo a fé raciocinada como guia segura, nos parece que correremos menos riscos de nos perdemos em posições duvidosas, em crenças mal fundamentadas ou em imitarmos na vida real os personagens crédulos, caricaturados em alguns filmes e telenovelas que usam o espiritualismo em seus enredos.

Quem não crê nesse risco, dê uma passada de olhos nas prateleiras de algumas das grandes livrarias, e encontrará, misturados a livros espíritas sérios, uma boa quantidade de obras que não resistiriam a análise mais simples de seu conteúdo e que mais atrapalham do que ajudam na divulgação da Doutrina Espírita.

Algumas são obras mediúnicas com conteúdo mais que duvidoso, e nem estamos aqui questionando se realmente são ditadas por espíritos ou não, pois, o fato do autor ser um espírito desencarnado não o torna automaticamente sábio. Aliás, esta foi uma das primeiras constatações de Kardec, de que os habitantes do mundo espiritual são os que viveram como seres humanos e seu grau de adiantamento e a confiança que podemos dar às suas informações variam enormemente.

Como conclusão do que foi debatido, um dos editores usou uma expressão americana muito interessante, dizendo: precisamos no GEAE, mais do que nunca, estudar Kardec "from scratch". Estudar a partir das bases mesmo; do material deixado por Kardec, da forma como organizou esse material e do método que seguia para o estudo.

Kardec foi um pensador adiante de seu tempo e estabeleceu o método para lidar com fenômenos que escapavam as ciências ordinárias. Ao definir como estudar os fenômenos mediúnicos, como extrair de uma infinidade de fatos dispersos e de comunicações das mais diversas, as leis gerais que governam a comunicação entre o mundo espiritual e o material, ele abriu o caminho para um mundo novo de descobertas.

Sempre apoiado nos fatos, na análise criteriosa de como estes fatos poderiam ser explicados por modelos teóricos e das consequências dessa análise, Kardec nunca abriu mão de usar o crivo da razão, de evitar juízos sobre questões que não poderiam ainda ser fechadas e rejeitar aquilo que não se sustentava.


Por mais abundantes que sejam nossas observações pessoais e as fontes onde as colhemos, nem dissimulamos as dificuldades da tarefa, nem nossa insuficiência. Para a suplementar, contamos com o concurso benévolo de todos quantos se interessam por esses problemas. Seremos, pois, gratos pelas comunicações que nos forem transmitidas sobre os diversos assuntos de nossos estudos. Nesse propósito chamamos a atenção para os dez pontos seguintes, sobre os quais nos poderão fornecer documentos:

1­ Manifestações materiais ou inteligentes, obtidas em reuniões a que estiverem presentes;

2­ Fatos de lucidez sonambúlica e de êxtase;

3­ Fatos de segunda vista, previsões, pressentimentos, etc;

4­ Fatos relativos ao poder oculto atribuído, com ou sem razão, a certas pessoas;

5­ Lendas e crenças populares;

6­ Fatos de visões e aparições;

7­ Fenômenos psicológicos particulares, que por vezes, ocorrem no momento da morte;

8­ Problemas morais e psicológicos a resolver;

9­ Fatos morais, atos notáveis de devotamento e abnegação, cuja propagação pode servir de exemplo útil;

10­ Indicações de obras antigas ou modernas, francesas ou estrangeiras, nas quais se encontrem fatos relativos a manifestação de inteligências ocultas com a designação e, se possível, a citação das passagens. O mesmo no que concerne à opinião emitida sobre a existência dos Espíritos e suas relações com os homens, por autores antigos ou modernos, cujo nome e saber lhes dão autoridade. Só publicaremos os nomes das pessoas que nos enviarem comunicações se recebermos formal autorização.

Allan Kardec ­ Observação no final da introdução ao primeiro número da Revue Spirite em janeiro de 1858

 

Fonte: Boletim GEAE 549, Fev. 2012

Powered by OrdaSoft!