VARA maior competição internacional do esporte mais popular do planeta terminou, é verdade. Mas uma novidade tecnológica ainda nos faz pensar sobre a inteligência humana e os atos de nossa vida. É fato que o uso de recursos materiais, num plano de prova e expiação como o nosso, é sinal do aproveitamento dos talentos humanos e, como nos disseram os Espíritos Superiores, na obra de Allan Kardec, o homem deve dispor dos meios disponíveis para facilitar a vida neste orbe.

A novidade acima mencionada foi o VAR (sigla em inglês para “video assistant referee”, ou seja, árbitro assistente de vídeo) consistindo numa equipe de encarregados da arbitragem do jogo esportivo, situados em uma sala distante do estádio onde a partida foi realizada, com a utilização de imagens de distintas câmeras para opinar e favorecer a análise remota de lances futebolísticos, motivando as decisões daquele que dirigia o espetáculo. Com ele, portanto, algumas decisões tomadas pelo árbitro presencial (ou por seus auxiliares de campo) foram modificadas ou mantidas, ou, ainda, eventuais dúvidas sobre que decisão tomar em relação a situações de jogo receberam tal auxílio.

Qual seria o efeito de um VAR para as atividades genuinamente espíritas? Que benefícios esta situação hipotética poderia gerar? Quais as revisões de percurso ou os avanços possíveis para o Espiritismo?

Imaginemos uma reunião mediúnica. As câmaras poderiam captar, registrar e repetir, inclusive em “slow motion” (reprodução lenta, quadro a quadro) as situações da fenomenologia mediúnica, nos atos materiais, humanos, dos médiuns. Não é? Se o Espiritismo, como no-lo definiu Allan Kardec, é uma ciência de observação, o VAR permitiria a observação meticulosa dos eventos mediúnicos, inclusive para reprimir fraudes e para melhorar a “performance” dos médiuns.

Se pudermos voltar no tempo, ainda que somente num exercício prospectivo e de imaginação e cogitação, o homem Kardec esteve, frente a frente, com a fenomenologia mediúnica, desde o episódio das cestas escreventes. Percebeu – como ele mesmo relatou – que os objetos não tinham músculos nem cérebros e que havia uma “causa inteligente” por detrás dos mesmos. Depois, ao se convencer de que inteligências invisíveis, de pessoas fisicamente mortas, haviam retornado para fornecer mensagens e informações, deduziu dos fenômenos experimentais o chamado método mediúnico, podendo compor um verdadeiro “manual de mediunidade” com a organização e publicação de “O livro dos médiuns”. Com seu acurado senso crítico (bom senso) e sua qualificação pessoal (formação e experiências de vida), continuou observando muitos fenômenos – sobretudo os de psicografia e psicofonia, isto é, escrita e fala mediúnicas – e, sobre o material coletado, estabeleceu o exame lógico-racional que constituiu a edificação de um sistema de princípios fundamentais espíritas e, a partir dele, reunir e aprovar mensagens similares e coincidentes, assim como repelir e descartar as conflitantes ou inverossímeis.

Kardec foi, assim, para os eventos mediúnicos presenciais de que participou, o próprio VAR do Espiritismo. É claro, sem aparatos tecnológicos e sem a possibilidade de rever, por meio de imagens, os fatos, confiando, precipuamente, em sua prodigiosa memória e com o seu raciocínio privilegiado. E, para as mensagens que lhe chegaram por via postal ou que lhe foram entregues presencialmente, depois de eventos mediúnicos, exerceu um outro tipo de VAR, apenas de caráter comparativo, sob a forma do Consenso Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE).

Isto sem falar nos depoimentos de médiuns videntes (aqueles que enxergam situações ocorridas em outro plano dimensional, envolvendo os seres incorpóreos) atestando detalhes das entidades comunicantes, como a forma pelo qual se apresentavam – expressões dos perispíritos, corpos intermediários entre o Espírito e a vestimenta material, os corpos orgânicos – um terceiro tipo de VAR, dentro do contexto do presente ensaio.

Esta perspectiva do exame e reexame da mediunidade é, para mim, o principal elemento que falta ao movimento espírita brasileiro (e mundial), justamente porque a partir da “crença” da comunicabilidade entre os espíritos e ante a alegação (afirmação simples) de que se trata de um fenômeno mediúnico, que tem, para sua “ocorrência” a identidade de um médium (psicógrafo ou psicofônico) e a presença espiritual de ente(s) desencarnado(s) que lhe dita(m) mensagens, isto basta para o reconhecimento do resultado mediúnico: o texto, escrito.

E, assim, este mesmo movimento dito espírita valida pessoas (médiuns) e Espíritos sem qualquer meio de validação, apenas baseando-se na boa-fé e na crença de que é um fenômeno de mediunidade e que os “ensinos” estão acima de qualquer suspeita. Consolidou-se entre os espíritas majoritários e tradicionais a afirmação de que a “mediunidade” é “instrumento do (e para o) bem” e que os “espíritos superiores” não permitiriam fraudes, equívocos e estariam a tudo supervisionando para que o Espiritismo pudesse avançar.

Duvidar de um médium? Dizer que a mensagem assinada por um vulto (espírita ou da humanidade) que está por detrás de uma mera assinatura contém inverdades? Comparar com as informações contidas em livros do século XIX? Não, mesmo! Pois é isso que, via de regra, se faz em relação às comunicações, aos textos e aos livros que, diariamente, chegam ao mercado consumidor e promissor dos espíritas e simpatizantes da Filosofia Espírita.

Não há, de parte das editoras, das federações, das entidades que “representam” os espíritas, salvo pequenas exceções e com interesses específicos, qualquer debruçar sobre as obras tidas como mediúnicas. Não há qualquer exercício comparativo para verificar se o conteúdo de um texto ou de uma obra é compatível com a principiologia espiritista – aquela que decorre das 32 (trinta e duas) obras do professor francês. Não, não há! E tudo fica como está, e tudo vai muito bem! Só que não!

Temos médiuns oficiais, médiuns reconhecidos, médiuns aceitos, “espíritos de luz” validados e muita admiração e empolgação com que o espírito ditou ou o médium falou ou escreveu. E temos espíritos considerados ilusionistas e médiuns descredenciados ou criticados, porque não fazem parte dos organismos maiores, humanos, associativos, que os legitimam. Tudo pela ação da chamada “política espírita”, que reconhece ou não pessoas ou instituições, “a bem” do Espiritismo tradicional.

Que falta faz o VAR, em suas mais variadas espécies – explicitadas acima – para as “ocorrências” mediúnicas! Que falta faz o bom senso e a lógica racional de Allan Kardec, que continua permitindo, desde que o Espiritismo começou a se tornar “popular” e crescente em número de adeptos, simpatizantes ou de instituições que levam tal denominação, isto é, desde o final da década de 1920, do século passado.

O Espiritismo brasileiro jamais teve um VAR. A diretriz escolhida pelos espíritas brasileiros sempre foi a de que existe “autorização” das “esferas” superiores para que determinados Espíritos se utilizem da mediunidade (desinteressada) de certos médiuns, para transmitir à Humanidade conhecimento e orientações. E realizar um exame crítico, como fazia Kardec em relação a qualquer texto ou obra que lhe chegasse às mãos ou lhe fosse sugerida, é descartado de plano. Inclusive pela definição tácita de que nenhum espírita da atualidade – assim como das décadas anteriores – tem “estofo”, “autoridade”, “estatura”, “nível espiritual” para contestar uma linha sequer das “produções mediúnicas” dos médiuns que você deve estar listando em sua tela mental, no momento em que lê este nosso corajoso artigo.

Talvez, individualmente, não existam, no chamado movimento espírita, pessoas que se aproximem de Rivail. Seu cabedal de conhecimentos, sua trajetória espiritual, sua formação acadêmica, seus qualificativos espirituais, realmente, são muito peculiares. Mas um conjunto de “homens de bem” (descrição contida nas questões 918 e seguintes de “O livro dos espíritos”, mas também contida em várias passagens de “O evangelho segundo o espiritismo”, assim como distribuídas, de modo esparso e conjugado em várias das demais obras assinadas por Kardec), poderia fazê-lo, associativamente, com resultados expressivos e muito válidos, por não dizer oportunos e necessários.

Este seria o verdadeiro VAR do Espiritismo. A perspectiva de que, a cada texto ou obra, tivéssemos o avanço necessário dos “ensinos dos espíritos”, agregando novos àqueles que foram apresentados no período de Kardec (1857-1869). Se ele, com amparo em informações trazidas pelos Espíritos Superiores que consultou, afirmou que seria imprescindível a progressividade dos ensinos espirituais, dados pelas inteligências desencarnadas a médiuns comprometidos com o ideário espírita, isto somente poderia se materializar e configurar como agregado à Codificação, se respeitadas as premissas do método que eles, em conjunto, conceberam, o já citado CUEE.

Sem o VAR, meus amigos, isto é, sem o retorno a tal metodologia, deixando de lado “achismos”, “crendices”, “superstições”, “orgulhos”, “vaidades” e “soberbas”, permaneceremos caminhando a passos largos para o domínio de uma religião cega e asfixiante, baseada em dogmas de certeza incontestável, egressas das chamadas “obras complementares” que começaram com os primeiros livros de André Luiz e de Emmanuel, psicografados e não aferidos, por Chico Xavier e continuaram com os outros “médiuns oficiais” do Espiritismo tupiniquim. Os nossos caciques, líderes religiosos espíritas do ontem e do hoje, continuam a oficializar obras e autores, encarnados e desencarnados, incluindo como se espíritas fossem afirmações discutíveis, equivocadas e marcadas por expressões diversas de espiritualismo, presentes em seitas e religiões de todos os tempos, sobretudo aquelas reunidas sobre as formas igrejeiras de adjetivação cristã. E os nossos fiéis, os adeptos, freqüentadores de casas e reuniões espíritas, seguem-lhes as diretrizes, sem qualquer esforço de avaliação e comparação, porque são induzidos a tudo aceitar, porque, dizem os primeiros, tudo “vêm dos Espíritos”.

Se tivéssemos utilizado o VAR de Kardec, teríamos tido uma produção mediúnica muito melhor, com consultas específicas aos Espíritos Superiores e com a continuidade das temáticas exploradas inicialmente pelo Codificador, agregando outras peculiares aos nossos tempos. Teríamos, certamente, qualificado a obra do saudoso médium mineiro e a dos demais, a partir da evocação (técnica de Kardec) e da recepção e análise das comunicações obtidas espontaneamente. Mas não o fizemos, lamentavelmente...

O VAR está aí, ao nosso dispor e para a nossa utilização. O VAR do exame racional da mediunidade e seus resultados. Nós estamos utilizando o VAR. E você?


 Sobre o autor:

Marcelo Henrique Pereira: Formado em direito e acadêmico em administração pública pela UFSC, mestre em Ciência Jurídica com doutorado em direito pela Universidade Católica de Santa Fé-Argentina é professor e auditor fiscal do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina. Escritor e conferencista espírita é secretário executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo.