BOLETIM GEAE | ANO 24 | NÚMERO 554 | DEZEMBRO DE 2015

Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade" Allan Kardec

Grupo de Estudos Avançados Espíritas  GEAE

Primeiro Grupo Espírita da Internet

Conselho Editorial:

Raul Franzolin Neto

Carlos Alberto Iglesia Bernardo

José Cid

Renato Costa

Os boletins e informações sobre utilização do material do GEAE encontram-se no site:http://geae.net.br

Editorial

Em todas as épocas da humanidade elevada evolução espiritual sempre esteve presente em reencarnações que deixaram exemplos de vida. Por que elas existem? Para o espírito evoluído parece um desafio incontestável. É como um indivíduo com alta capacidade intelectual depois de atingir os mais altos níveis de cultura científica tivesse que sentar nos bancos escolares do primeiro grau para estudar. Só uma explicação plausível. Avançar mais rapidamente diante do marasmo.

Neste mês de dezembro completamos 100 anos da publicação do artigo sobre a teoria de relatividade de Albert Einstein. Um passo decisivo na relação espaço-tempo.

O mundo evolui rapidamente e cientistas são ansiosos por novas descobertas. Mas por que não avançamos nos conceitos científicos da relação vida-morte? No caso de um suicídio, o que se pode dizer eficientemente para evitá-lo?

Nesta edição publicamos na seção “Nos Tempos da Codificação”, a segunda parte do discurso proferido por Allan Kardec no início da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas no encerramento do ano social 1858-1859. Kardec demonstra que o caminho para a busca da verdade passa pelo crivo da razão com sabedoria e humildade que são requisitos necessários para a orientação dos bons espíritos.

Artigos

 

Suicídio: causas e consequências

Raul Franzolin Neto

 “As causas e consequências do suicídio só podem ser entendidas em um contexto geral, envolvendo as vivências passadas, presente e futuras e, portanto, não está ao nosso alcance no momento.


      Certa vez participei do funeral de uma jovem de 33 anos que optou pelo desencarne drástico com o auto enforcamento, vítima de momento fortemente depressivo. A tristeza estava estampada nos rostos de muitos familiares e amigos.

Durante o sepultamento, em oração pedi ajuda ao plano espiritual para o acolhimento da jovem sob as bênçãos de Deus e fiquei refletindo sobre o processo em si e da sua importância na nossa vida, já que ocorrem muitos casos assim.

O ambiente formado nesse momento é de muita tristeza, espanto e comoção social pelo rompimento inesperado de uma vida aqui na Terra.

Muito se tem falado a respeito do suicídio, envolvendo aspectos sociais, religiosos, pessoais, etc.  Informações existem de todas as maneiras, e talvez todas levem ao caminho da prática condenável indicativo do extremo erro irreparável.

Mas certamente esse processo não é tão simplista como muita gente acredita, ou seja, o indivíduo decidiu pela sua própria morte, descumprindo a Lei de Deus sendo condenado eternamente. Primeiramente o espiritismo nos ensina que não há penas eternas e nem mesmo punição pura e simplesmente. Há sim necessidade de reparo de qualquer situação inadequada que passarmos. Árduos sofrimentos são enfrentados pelo espírito diante da evolução espiritual, o qual significa um caminho crescente de aperfeiçoamento rumo a felicidade eterna.

A visão estritamente condenável com informações irracionais (absurdas) e longe da verdade, embora possa até contribuir para evitar a prática do suicídio, também não é útil nem para os parentes e amigos e muito menos para o suicida que enfrentará mais dificuldades para o reequilíbrio de suas forças. Mais do que o medo dessa condenação eterna, ou longa duração dependente de orações constantes imposta por muitos, a característica nata individual do desconhecido, ou do medo da morte, é muitas vezes maior, pois ela faz parte da Lei de Deus que nos é dada como meio de preservação da vida.

As causas e consequências do suicídio só podem ser entendidas em um contexto geral, envolvendo as vivências passadas, presente e futuras e, portanto, não está ao nosso alcance no momento.

Devemos considerar que infelizmente o nosso planeta Terra não é um ambiente de total felicidade para a reencarnação de muitos espíritos, principalmente para aqueles que já se encontram em bom estado de evolução espiritual e se propõe avançar mais rapidamente. Vivemos em constante conflitos de condutas estando sujeitos aos mais variados dissabores como assaltos, roubos, crimes horrorosos, guerras, acidentes, fome, miséria, doenças simples e graves, problemas psicológicos como traumas e depressão, além de problemas ambientais com terremotos, secas, inundações, tornados, etc. A desigualdade social é visível dentro de regiões, países e continentes. Nesse contexto, qual será a visão de um espírito que reconhece a necessidade de reencarnar na Terra e vem em sua mente - para onde? De que forma (como)? O que devo fazer? Quanto tempo?

Há, portanto, que analisar a forte pressão imposta pelo meio a que estamos sujeitos em todas as fases do crescimento do indivíduo. Na infância e juventude, a inocência, drogas, problemas sociais; no adulto a insegurança, desemprego, problemas financeiros e desajuste social; na velhice o desamparo, solidão, doenças e tantos outros fatores em todas as fases da vida. Por isso, a semente da preservação da vida em nosso ser é muito forte dentro da Lei Divina da sobrevivência. É por essa razão, que com tantos problemas, o desencarne pelo suicídio é muito pequeno diante da morte natural.

A questão do suicídio deve ser encarada com grande seriedade, pois dizer que a pessoa é condenada eternamente, não produz efeito naqueles que realmente se encontram nesse caminho. É preciso que a pessoa faça uma real reflexão sobre sua vida em toda a sua vivência na Terra, para aí sim, ser capaz de superar esse tremendo trauma e dar o próximo passo em direção ao outro caminho que é o da preservação natural da vida. Do caminho que a levará ao brilhante estado da compreensão e da renovação. 

É interessante observar que quando tudo está indo bem na vida, muitos nem sequer imaginam a possibilidade de uma reviravolta com sérias complicações. Acreditam que a felicidade já está em sua porta e isso é o suficiente. Acreditam que o mérito reside em manter tudo em boas condições. É o caminho, sem dúvida, mais fácil. Entretanto, também é o mais perigoso, pois não há evolução em nível elevado, sem a prática do esforço constante.  Não é incomum, verificarmos a mudança total da chamada vida feliz para um desastre completo, um pesadelo. E pior, como o ditado popular, “desgraça pouca é bobagem”. Isso é um fato e não uma suposição. O espanto, a surpresa acontece mesmo nas maiores evidências do planeta em meio artístico. A gente não consegue entender como uma pessoa, aparentemente feliz, bonita com plena saúde, rica e poderosa, acaba em situações extremamente desagradáveis e, muitas vezes, em suicídio premeditado, ou indireto com o uso abusivo de álcool, drogas, conduta pessoal perigosa, etc. Um novo desafio surge às portas, provavelmente solicitado pelo próprio espírito em seu planejamento do processo reencarnatório.

Muitas pessoas que cometem o suicídio trazem a angustia de sentirem-se inúteis sem razão de existir e decidem pôr um fim na vida e pronto. Muitos aceitam que seus problemas acabam com a morte.  Essa angustia só pode ser revertida ao sentir que o fim não existe e que ela irá viver eternamente se evoluindo, lutando contra suas mazelas, independente se irá desencarnar hoje ou daqui há muito tempo.

O efeito provocado pelo suicídio é sem dúvida complicado ao espírito devido a redução do tempo da planejada reencarnação, entretanto, cada caso será devidamente avaliado individualmente como em tudo que fazemos e a nova jornada da vida dependerá de toda atividade vivida em muitas reencarnações e no plano espiritual.

A chave do caminho da felicidade eterna está perfeitamente definida na frase “conhece-te a ti mesmo”.

Em todas as épocas da humanidade vamos encontrar exemplos de vida que mostram verdadeira superação diante de extremo desafio na vida. Daí a oração que aprendemos”...livrai-nos do mal” ou “orai e vigiai”.

Vamos rever um pequeno trecho de um diálogo entre Sócrates e Alcebíades, ressaltando que esses filósofos viveram há cerca de 2500 anos e suas reflexões continuam relevantes até hoje. É a própria evolução espiritual elevada já naqueles tempos.

Sócrates — Acaso poderíamos reconhecer a arte que aperfeiçoa os calçados, se não soubéssemos em que consiste um calçado?

Alcibíades — Impossível.

Sócrates — Ou que arte melhora os anéis, se não soubéssemos o que é um anel?

Alcibíades — Não, isto não é possível.

Sócrates — Que seja fácil ou não, Alcibíades, estamos sempre em presença do fato seguinte: somente conhecendo-nos é que podemos conhecer a maneira de nos preocupar conosco; sem isto, não o podemos.

Assim também ouso a inferir:

- É certo que para melhorarmos um sentimento ou vício precisamos conhecê-lo?

Sim, é claro.

- Um indivíduo conhece e modifica todos os seus sentimentos e vícios exatamente da mesma forma que outro indivíduo?

-Não, isso não é possível, caso contrário, eles seriam um só.

Acaso poderíamos reconhecer todos os sentimentos e vícios que existem no indivíduo e suas infinitas possibilidades de mudanças, ou seja, o próprio indivíduo?

Não, isto não é possível.

É certo então, que não podemos melhorar todo o indivíduo se não conheço?

Sim, isso é certo.

Então podemos concluir que somente ele mesmo é capaz de melhorar os sentimentos que somente ele conhece?

Isto parece lógico.

É certo então, que podemos melhorar com a experiência de outro indivíduo somente os sentimentos que reconheço nele?

Sim.

Então é com a experiência de vida na convivência infinita é que aperfeiçoamos todos os nossos sentimentos de maneira que nunca existirá dois indivíduos iguais, já que existem infinitas combinações existenciais.


Nos tempos da Codificação

 

SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITAS

Discurso de encerramento do ano social (1858-1859) – Parte II

Allan Kardec

É conhecido o provérbio: Dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Podemos parodiá-lo em relação aos nossos Espíritos simpáticos, dizendo: Dize-me o que pensas, dir-te-ei com quem andas.


Os Espíritos são o que são e nós não podemos alterar a ordem das coisas. Como nem todos são perfeitos, não aceita­mos suas palavras senão com reservas e jamais com a creduli­dade das crianças. Julgamos, comparamos, tiramos conclusões do que observamos e os seus próprios erros constituem ensinamentos para nós, uma vez que não renunciamos ao nosso discernimento.

Estas observações aplicam-se igualmente a todas as teorias científicas que os Espíritos podem dar. Seria muito cômodo se bastasse interrogá-los para se encontrar a Ciência acabada e possuir todos os segredos da indústria. Não conquistamos a Ciência senão à custa de trabalho e de pesquisas. A missão dos Espíritos não é livrar-nos dessa obrigação. Aliás, sabemos que eles não sabem tudo, como que há entre eles pseudo-sábios, assim como entre nós, os quais pensam saber aquilo que não sabem e falam daquilo que ignoram com a mais imperturbável audácia.

Um Espírito poderá, pois, dizer que é o Sol que gira em redor da Terra e não esta; sua teoria não seria mais exata pelo fato de provir de um Espírito. Saibam, pois, aqueles que nos atribuem uma credulidade tão pueril, que tomamos toda opinião emitida por um Espírito como uma opinião pessoal; que não a aceitamos senão depois de havê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação fornecidos pela própria Ciência Espírita, meios que vós todos conheceis.

Tal é, senhores, o fim a que se propõe a Sociedade. Não cabe a mim, por certo, vo-lo dizer, posto me agrade recordá-lo aqui, a fim de que minhas palavras repercutam lá fora e nin­guém se equivoque quanto ao seu verdadeiro sentido. De minha parte sinto-me feliz por não ter tido senão que vos acompanhar neste caminho sério, que eleva o Espiritismo à altura das ciên­cias filosóficas. Vossos trabalhos já produziram frutos; incal­culáveis, entretanto, são os que mais tarde produzirão, desde que — disso não tenho dúvidas — continueis nas condições pro­pícias a fim de atrairdes os bons Espíritos ao vosso meio.

O concurso dos bons Espíritos — tal é, com efeito, a con­dição sem a qual não se pode esperar a Verdade; ora, depende de nós obter esse concurso. A primeira condição para merecer­mos a sua simpatia é o recolhimento e a pureza das intenções. Os Espíritos sérios vão onde são chamados seriamente, com fé, fervor e confiança. Eles não gostam de servir de experiência, nem de dar espetáculo. Ao contrário, gostam de instruir aqueles que os interrogam sem ideias preconcebidas. Os Espíritos levianos, que se divertem de todos os modos, vão a toda parte e, de preferência, aos lugares onde encontram uma ocasião para mistificar. Os maus são atraídos pelos maus pensamentos, e por maus pensamentos devemos compreender todos aqueles que não se conformam com os princípios da caridade evangélica. Assim, pois, quem quer que traga a uma reunião sentimentos contrários a esses preceitos, traz consigo Espíritos desejosos de semear a perturbação, a discórdia e a desafeição.

A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é, assim, uma condição de primeira necessidade e não é possível encontrá-la num meio heterogêneo, onde tivessem acesso as pai­xões inferiores como o orgulho, a inveja e o ciúme, as quais sempre se revelam pela malevolência e pela acrimônia de lin­guagem, por mais espesso que seja o véu com que se procure cobri-las. Eis o abecê da Ciência Espírita. Se quisermos fechar a porta desse recinto aos maus Espíritos, comecemos por lhes fechar a porta de nossos corações e evitemos tudo quanto lhes possa conferir poder sobre nós. Se algum dia a Sociedade se tornasse joguete dos Espíritos enganadores, é que a ela teriam sido atraídos. Por quem? Por aqueles nos quais eles encontram eco, pois vão aonde são escutados. É conhecido o provérbio: Dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Podemos parodiá-lo em relação aos nossos Espíritos simpáticos, dizendo: Dize-me o que pensas, dir-te-ei com quem andas.

Ora, os pensamentos se traduzem por atos; se admitirmos que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme não podem ser inspirados senão por maus Espíritos, aqueles que aqui trouxes­sem elementos de desunião suscitariam entraves, com o que in­dicariam a natureza de seus satélites ocultos. Então só poderíamos lamentar sua presença no seio da Sociedade. Deus per­mita que assim não aconteça; e espero que, auxiliados pelos bons Espíritos, se a estes nos tornarmos favoráveis, a Sociedade consolidar-se-á, tanto pela consideração que tiver merecido, quanto pela utilidade de seus trabalhos.

Se tivéssemos em mira apenas experiências para satisfação de nossa curiosidade, a natureza das comunicações seria mais ou menos indiferente, pois nelas veríamos somente o que elas são. Como, porém, em nossos estudos não buscamos uma diversão para nós, nem para o público, queremos comunicações verdadeiras. Por isto necessitamos da simpatia dos bons Espíritos; e esta só é conseguida pelos que afastam os maus com a sinceridade de seu coração.

Dizer que Espíritos levianos jamais deslizaram entre nós para encobrirmos qualquer ponto vulnerável de nossa parte, seria uma presunção de perfeição. Os Espíritos superiores chegaram mesmo a permiti-lo, a fim de experimentar a nossa perspicácia e o nosso zelo na pesquisa da verdade. Entretanto, o nosso raciocínio deve pôr-nos em guarda contra as ciladas que nos po­dem ser armadas e em todos os casos dá-nos os meios de evitá-las.

O objetivo da Sociedade não é apenas a pesquisa dos prin­cípios da Ciência Espírita. Ela vai mais longe: estuda tam­bém as suas consequências morais, pois é principalmente nestas que está a sua verdadeira utilidade.

Ensinam os nossos estudos que o mundo invisível que nos circunda reage constantemente sobre o mundo visível; e no-lo mostram como uma das forças da Natureza. Conhecer os efei­tos dessa força oculta, que nos domina e nos subjuga malgrado nosso, não será ter a chave de muitos problemas, as explica­ções de uma porção de fatos que passam inapercebidos? Se esses efeitos podem ser funestos, conhecer a causa do mal não é ter um meio de preservar-se contra ele, assim como o conhe­cimento das propriedades da eletricidade nos deu o meio de ate­nuar os desastrosos efeitos do raio? Se então sucumbirmos não nos poderemos queixar senão de nós mesmos, porque a igno­rância não nos servirá de desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos exercem sobre as pessoas, o que não é apenas uma coisa funesta, do ponto de vista dos erros de prin­cípios que eles podem propagar, como ainda do ponto de vista dos interesses da vida material. Ensina a experiência que não é impunemente que nos abandonamos ao domínio dos maus Espí­ritos. Porque suas intenções jamais podem ser boas. Uma de suas táticas para alcançar os seus fins é a desunião, pois sabem muito bem que podem facilmente dominar quem estiver sem apoio. Assim, o seu primeiro cuidado, quando querem apode­rar-se de alguém, é sempre inspirar-lhe a desconfiança e o isolamento, a fim de que ninguém possa desmascará-los, escla­recendo a vítima com conselhos salutares. Uma vez senhores do terreno, podem à vontade fascinar a pessoa com promessas sedutoras, subjugá-la por meio da lisonja às suas inclinações, para o que aproveitam os lados fracos que descobrem a fim de melhor fazê-la sentir, depois, a amargura das decepções, feri-la nas suas afeições, humilhá-la no seu orgulho, e, muitas vezes, elevá-la por um instante, apenas, para a precipitar de mais alto.

Eis, senhores, o que nos mostram os exemplos que a cada momento se desdobram aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, circunstância que pode­mos aproveitar para nós próprios, ao mesmo tempo que pro­curamos torná-la proveitosa aos outros.

Entretanto, perguntarão se não atrairemos os maus Espí­ritos, evocando homens que foram o rebotalho da' sociedade.

Não, porque jamais sofremos a sua influência. Só haverá perigo quando é o Espírito que se impõe; nunca, porém, quando nos impomos ao Espírito. Sabeis que tais Espíritos não atendem ao vosso chamado senão constrangidos e forçados; que em geral se acham tão deslocados em vosso meio que têm pressa em retirar-se. Para nós sua presença é um estudo, porque par conhecer é necessário ver tudo. O médico não chega ao apogeu do conhecimento senão sondando as mais hediondas chagas.

Ora, essa comparação do médico é tanto mais justa quanto mais sabeis das chagas que temos curado e dos sofrimentos que temos aliviado. Nosso dever é mostrar-nos caridosos e benevolentes para com os seres de além-túmulo, assim como para c nossos semelhantes.

Senhores, pessoalmente eu desfrutaria de um privilégio estranho se tivesse ficado ao abrigo da crítica. Não nos pomos em evidência sem nos expormos aos dardos dos que não pensai como nós. Há, porém, duas espécies de crítica: uma que é malévola, acerba, envenenada, na qual o ciúme se trai a cada palavra; a outra, que visa à sincera procura da verdade, tem características absolutamente diversas. A primeira só merece o desdém. Jamais com ela me preocupei. Só a outra é discutível.

Algumas pessoas disseram que fui muito precipitado nas teorias espíritas, que ainda não era tempo de estabelecê-las, pois as observações não estavam completas.

Permiti-me algumas palavras sobre o assunto.

Duas coisas há que considerar no Espiritismo: a parte experimental e a filosófica ou teórica.

Abstração feita do ensino dos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho, como qualquer outra pessoa, o direito de elucubrar um sistema filosófico. Não está o campo da opinião aberto a todo mundo? Por que, então, não posso dar a conhecer o meu? Cabe ao público julgar se ele tem ou não tem sentido.

Mas essa teoria, em vez de me conferir qualquer mérito, se mérito existe eu declaro que emana inteiramente dos Espíritos.

Vá lá que seja, dirão alguns; mas isto é ir muito longe

Aqueles que pretendem dar a chave dos mistérios da Criação, desvendar o princípio das coisas e a natureza infinita de Deus, não vão mais longe do que eu, que declaro, em nome dos Espíritos, que não é dado ao homem aprofundar essas coisas sobre as quais só podemos fazer conjecturas mais ou menos prováveis?

   Andais muito depressa.

   Mas seria erro tomar a dianteira a certas pessoas? Aliás, quem as impede de marchar?

   Os fatos não estão ainda suficientemente observados.

   Mas se, certo ou errado, eu creio tê-los observado sufi­cientemente, devo esperar as boas disposições dos que ficam para trás? Minhas publicações não barram o caminho a nin­guém.

   Sendo os Espíritos sujeitos a erro, quem vos diz que aqueles que vos deram instruções não se tenham enganado?

   Toda a questão reside nisto: a objeção de precipitação é muito pueril. Ora! Eu devo dizer em que se funda a minha confiança na veracidade e na superioridade dos Espíritos que me instruíram. Para começar direi que, conforme o seu con­selho, nada aceito sem controle e sem exame; só adoto uma ideia quando esta me parece racional, lógica e concorde com os fatos e as observações, desde que nada de sério venha con­trariá-la. Entretanto, meu julgamento não poderá ser um cri­tério infalível. O assentimento que encontrei por parte de pes­soas mais esclarecidas do que eu dá-me a primeira garantia. Mas eu encontro outra não menos preponderante no caráter das comunicações que foram feitas, desde que me ocupo de Espiri­tismo. Jamais — posso dizê-lo — escapou uma única dessas palavras, um só desses sinais pelos quais sempre se traem os Espíritos inferiores, mesmo os mais astuciosos. Jamais dominação; jamais conselhos equívocos ou contrários à caridade e à bene­volência; jamais prescrições ridículas. Longe disso, neles só encontrei pensamentos grandes, nobres, sublimes, isentos de pe­quenez e de mesquinharia. Numa palavra, suas relações co­migo, nas menores como nas maiores coisas, foram sempre tais que, se tivesse sido um homem que me falasse, eu o teria con­siderado o melhor, o mais sábio, o mais prudente, o mais moral e o mais esclarecido.

Senhores, aqui estão os motivos de minha confiança, cor­roborada pela identidade do ensino dado a uma porção de outras pessoas, antes e depois da publicação de minhas obras. O futuro dirá se estou certo ou errado. Enquanto isto, creio ter ajudado o progresso do Espiritismo, colocando algumas pe­dras em seu edifício. Mostrando que os fatos podem assen­tar-se no raciocínio, terei contribuído para fazê-lo sair do cami­nho frívolo da curiosidade, a fim de fazê-lo entrar na via séria da demonstração — única apta a satisfazer os homens que pen­sam e que não se detêm na superfície.

Termino, meus senhores, pelo rápido exame de uma questão atual.

Fala-se de outras sociedades que desejam rivalizar com a nossa.

Dizem que uma delas conta 300 membros e possui impor­tantes recursos financeiros. Quero crer que não seja uma fanfarronada, tão pouco elogiável para os Espíritos que a tivessem suscitado quanto para aqueles que se lhe fizeram eco. Se for uma realidade, nós a felicitamos sinceramente, desde que ela obtenha a necessária unidade de sentimentos para frustrar a influência dos maus Espíritos e consolidar a sua existência.

Desconheço completamente quais são os elementos da so­ciedade ou das sociedades que dizem em formação. Farei apenas uma observação geral.

Há em Paris e alhures uma porção de reuniões íntimas, como outrora foi a nossa. Nelas se trata mais ou menos seriamente das manifestações espíritas, sem falar dos Estados Unidos, onde elas se contam aos milhares. Conheço algumas nas quais as evocações são feitas nas melhores condições e onde são obtidas coisas notáveis. É a consequência natural do nú­mero crescente de médiuns, que se desenvolvem de todos os lados, a despeito dos sarcasmos. E quanto mais avançarmos, mais se multiplicarão esses centros.

Formados espontaneamente de elementos muito pouco nume­rosos e variáveis, esses centros nada têm de fixo nem de re­gular e não constituem sociedades propriamente ditas. Para uma sociedade regularmente organizada faltam-lhes condições de vi­talidade completamente diversas, em razão do próprio número de pessoas que as compõem, de sua estabilidade e permanência. A primeira dessas condições é a homogeneidade de princípios e da maneira de ver. Toda sociedade formada de elementos heterogêneos traz em si o germe da dissolução. Podemos con­siderá-la natimorta, seja qual for o seu objetivo: político, re­ligioso, científico ou econômico.

Uma sociedade espírita requer outra condição — a assistência dos bons Espíritos — se quisermos obter comunicações sérias. Porque dos maus, caso lhes permitamos tomarem pé, nada obtere­mos senão mentiras, decepções e mistificação. Este é o preço de sua própria existência, pois que os maus serão os primeiros agentes de sua destruição. Eles a minarão pouco a pouco, caso não a derrubem logo de início.

Sem homogeneidade não haverá comunhão de pensamentos e, portanto, não serão possíveis nem calma nem recolhimento. Ora, os bons só se apresentam onde encontram tais condições. E como encontrá-las numa reunião onde as crenças são diver­gentes, onde alguns nem mesmo creem e, por conseguinte, onde domina incessantemente o espírito de oposição e de controvér­sia? Eles só assistem aos que desejam ardentemente esclarecer-se para o bem, sem segundas intenções, e não para satisfazer uma vã curiosidade.

Querer formar uma sociedade espírita fora destas condições seria dar provas da mais absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo.

Somos os únicos capazes de os reunir? Seria desagradável e muito ridículo assim pensar. Aquilo que nós fizemos, outros podem fazê-lo. Que outras sociedades se ocupem, então, de tra­balhos iguais aos nossos, prosperem e se multipliquem. Tanto melhor; mil vezes melhor, porque será um sinal de progresso nas ideias morais. Tanto melhor, sobretudo se forem bem as­sistidas e se tiverem boas comunicações, das quais não pretende­mos possuir o privilégio. Como só visamos à nossa instrução pessoal e ao interesse da Ciência, que a nossa sociedade não oculte nenhuma ideia e especulação direta ou indireta, nenhuma ambição, e que sua existência não repouse sobre uma questão de dinheiro. Que as outras sociedades sejam consideradas como nossas irmãs e não concorrentes. Se formos invejosos, prova­remos que somos assistidos por maus Espíritos. Se uma delas se constituísse para nos criar rivalidades, com a ideia precon­cebida de nos suplantar, por seu objetivo revelaria a própria natureza dos Espíritos que presidiram à sua formação, desde que um tal pensamento nem seria bom, nem caridoso, e os bons Espíritos não simpatizam com os sentimentos de ódio, ciúme e ambição.

Aliás, nós possuímos um meio infalível para não temer ne­nhuma rivalidade. É o que nos dá São Luís: Compreendei-vos e amai-vos, disse-nos ele. Trabalhemos, pois, para nos com­preendermos; lutemos com os outros, mas lutemos com caridade e abnegação. Que o amor do próximo esteja inscrito em nossa bandeira e seja a nossa divisa. Com isto desafiaremos a zomba­ria e a influência dos maus Espíritos. Neste particular poderão igualar-nos. Tanto melhor, pois serão irmãos que nos chegam. De nós depende, entretanto, não sermos nunca ultrapassados.

Mas, dirão, vós tendes uma maneira de ver que não é a nossa; não podemos simpatizar com princípios que não admiti­mos, porque nada prova que estejais com a verdade. A isto res­ponderei: nada prova que eles estejam mais certos do que nós, pois que ainda duvidam e a dúvida não é uma doutrina. A gente pode divergir de opinião sobre pontos da Ciência sem se morder nem atirar pedras, o que é pouco digno e pouco científico. Procurem, pois, do seu lado, como nós procuraremos do nosso. O futuro dará razão a quem de direito. Se nos enganarmos, não teremos o tolo amor-próprio de persistir em ideias falsas. Há, porém, princípios sobre os quais temos a certeza de não estar enganados: é o amor do bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e de ciúme.

Estes são os nossos princípios, com os quais sempre é pos­sível simpatizar sem comprometimento: é o laço que deve unir todos os homens de bem, seja qual for a sua divergência de opinião. Só o egoísmo põe de permeio uma barreira intrans­ponível.

São estas, meus senhores, as observações que acreditei dever apresentar-vos ao deixar as funções que me confiastes. Do Fundo do coração agradeço a todos aqueles que me testemunharam simpatia. Aconteça o que acontecer, minha vida está consagrada à obra que empreendemos e eu me sentirei feliz se meus esforços puderem ajudar a fazê-la entrar no caminho sério que é a sua essência, a única que lhe pode assegurar o futuro.

O fim do Espiritismo é melhorar aqueles que o compreendem. Procuremos dar o exemplo e mostrar que, para nós, a doutrina não é letra morta. Numa palavra, sejamos dignos dos bons Espíritos, se quisermos que eles nos assistam. O bem é uma couraça contra a aqual virão sempre quebrar-se as armas da malevolência.

Fonte: Kardec, A. Revista Espírita, Ano 1859, Edicel, p. 187-202.


Comunicabilidade Espiritual

 


E A POESIA CONTINUA…

Eterna Gratidão

Na minha mão tenho um segredo

Todos cantam a glória do ser

Mas poucos têm o querer de ver

O que tenho nas mãos

Sei que deveria ter seguido as ondas do mar

Naquele dia chuvoso

Foram se esvaindo meus sonhos

Recordo com emoção quando vi o seu rosto no chão

Chorei como criança com fome e sede

Quando vi você partir nas ondas frias e escuras

Tenho saudades dos tempos de menino

Em minha cidade querida e pobre

Mas rica na natureza

Sol, rios, montanhas e cachoeiras

Não mais quero pensar

Um dia foi meu pai que sofreu com minha fome

De amar e sorrir que nunca soube

Sentir sempre me comove

Agora o que fazer?

Disso quero me redimir

Sei bem o que a vida me espera

Num dia encontro caminho novo

Meu amigo de perto e de longe

Na afinidade da amizade se produz

O que o tempo induz

Amar e sentir ser amado

Na escuridão do universo

Você vem ao meu encontro

Com novo raio a brilhar

E erguer o tempo em vão

E me convidar ao trabalho

De fé se faz a felicidade

De luz se faz o amor

De sonhos se faz o calor

E de momentos

Vivo a eterna gratidão.

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Vade Mécum

Psicografia Raul Franzolin Neto, BH, julho 2015

 

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