Fonte: Boletim GEAE 13(490), 29/03/2005

 

Curso Ciência & Espiritismo

Alexandre Fontes da Fonseca, Brasil

1. FÍSICA E ESPIRITISMO III:ANÁLISE DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS

 

Nas últimas aulas, comentamos a respeito da relação entre energia e matéria e como a teoria quântica nos leva a compreender algumas questões do Livro dos Espíritos [1]. Hoje, iniciaremos uma importante discussão sobre os fenômenos espíritas, analisando se eles teriam ou não características “quânticas”. Por fenômeno espírita estamos querendo dizer os fenômenos que se caracterizam pela mediunidade de efeitos inteligentes e de efeitos físicos. Nesta aula, relembraremos algumas características dos fenômenos mediúnicos à luz do Espiritismo e comentaremos sobre algumas características dos fenômenos quânticos. Na próxima aula, analisaremos se os fenômenos espíritas são ou não quânticos.

A característica básica da mediunidade de efeitos inteligentes, incluindo a intuição, é a forma como os espíritos se comunicam. Segundo os espíritos, em resposta à questão número 282 do Livro dos Espíritos [1]:

282. Como se comunicam entre si os Espíritos?

"Eles se vêem e se compreendem. A palavra é material: é o reflexo do Espírito. O fluido universal estabelece entre eles constante comunicação; é o veículo da transmissão de seus pensamentos, como, para vós, o ar o é do som. É uma espécie de telégrafo universal, que liga todos os mundos e permite que os Espíritos se correspondam de um mundo a outro.” (Grifos nossos).

A mesma explicação pode ser encontrada para o mecanismo de ação da prece (ítem 10 do cap. XXVII do Evangelho Segundo o Espiritismo[2]). Os fenômenos de efeitos físicos requerem a presença de médiuns com uma aptidão especial (Cap. II da Segunda Parte do Livro dos Médiuns [3]) para fornecerem fluidos ditos animalizados. A mesma referência acima define as manifestações físicas como aquelas “que se traduzem por efeitos sensíveis, tais como ruídos, movimentos e deslocação de corpos sólidos.” Para ressaltar melhor uma característica que nos interessa em nossa análise, vamos estudar a explicação dada pelo espírito de Erasto para o fenômeno de transporte (ítens de 96 a 99 do Livro dos Médiuns [3]). Segundo Erasto, esse fenômeno requer a combinação dos fluidos do espírito com o fluido vital do médium. Vamos transcrever uma das perguntas de Kardec sobre o assunto, feitas a um espírito que se prestou a realizar o fenômeno de transporte de flores, e ao espírito de Erasto. A resposta de Erasto contém um ponto importante para nós:

8ª Será possível trazer flores de outro planeta?

"Não; a mim não me é possível."

- (A Erasto) Teriam outros Espíritos esse poder?

"Não, isso não é possível, em virtude da diferença dos meios ambientes."

Essa questão é interessante porque se não é possível trazer um objeto de outro planeta em virtude das diferenças na atmosfera fluídica entre a Terra e o planeta, podemos deduzir diretamente que o fenômeno de transporte não ocorre por meios instantâneos e imateriais. O fenômeno requer que o espírito vá até o local onde se encontra o objeto e, de alguma forma, traga-o consigo viajando através do espaço até o ponto onde ele o apresentará. <>Vejamos, agora, algumas características importantes dos fenômenos quânticos. Não é nosso objetivo expor uma longa explicação de todas as propriedades dos sistemas quânticos. O leitor que se interessar pelo assunto poderá estudá-lo profundamente em livros textos como o da referência [4]. Aqui, exporemos as ideias básicas que forem necessárias para nossa análise.

A primeira característica importante para nós (chamemo-la C1) é o fato de que ao nível microscópico, as trocas de energia somente ocorrem através de quantidades finitas pequenas (os quanta) de energia. No limite macroscópico, as quantidades de energia são tão grandes em comparação com os fenômenos em escala microscópica, que tudo funciona como se as trocas de energia fossem feitas com qualquer quantidade.

A segunda característica (chamemo-la C2) é a chamada dualidade onda-partícula, isto é, ora um objeto se comporta como se fosse uma onda; ora se comporta como se fosse uma partícula. Isso depende da forma como o observador prepara o experimento. Interpretações posteriores da Mecânica Quântica consideram que isso é uma consequência do chamado Princípio da Complementaridade que diz que a realidade nunca pode ser percebida em todas as suas características, mas que as várias formas se “complementam” na descrição da realidade. A terceira característica (chamemo-la C3) decorrente do aspecto ondulatório dos fenômenos quânticos, é a propriedade conhecida como não-localidade. Alguns fenômenos como o chamado colapso da função de onda, o salto quântico e o chamado emaranhamento de duas ou mais partes de um sistema, apresentam a característica não-local. Nesses fenômenos, a própria partícula ou alguma informação relacionada ao sistema é transferida de um lugar para outro do espaço de forma instantânea sem que tenha havido ocupação dos espaços intermediários nesse deslocamento. Essas características decorrem das propriedades daquilo que chamamos função de onda do sistema. Segundo a interpretação de Copenhague da Mecânica Quântica, atualmente mais aceita, o quadrado do módulo da função de onda de um sistema quântico contém a informação sobre as probabilidades de ocorrência para os valores das diversas grandezas físicas que o sistema pode apresentar em uma determinada medida experimental. Discutiremos, em aula futura, como essa característica probabilística pode gerar um conflito com um importante princípio espírita caso atribuamos ao espírito ou a Deus a existência de uma função de onda.

Na próxima aula faremos a análise dos fenômenos espíritas com base nas características dos fenômenos quânticos acima apresentados.

 

2. EXEMPLOS DE PESQUISAS DE INTERESSE ESPÍRITA COM VALOR CIENTÍFICO

 

Na aula anterior fizemos uma orientação com relação a busca de bibliografia com maior valor científico para os trabalhos de pesquisa de ordem científica, de interesse espírita. Tais bibliografias se justificam quando o trabalho de pesquisa visa trazer contribuições reais ao conhecimento espírita. Se a intenção é apenas divulgar outras pesquisas científicas e teorias novas ou expor ideias particulares baseadas em intuição ou opinião (deixando claro que se tratam de ideias ou opiniões apenas, sem valor científico), o rigor que comentamos não necessita ser tão severo já que esse tipo de trabalho ou texto não tem nenhum valor científico. Opinião, por mais respeitável que seja, por si só não tem valor científico. Faz parte do nosso estudo, aprender a discernir esse tipo de publicação daquela resultante de um trabalho de pesquisa mais elaborado.

Para não ocupar muito espaço vamos citar alguns exemplos de pesquisas de interesse espírita que possuem valor científico em função da qualidade das citações utilizadas e dos métodos e argumentos empregados no trabalho de pesquisa.

As pesquisas citadas na aula 4 na área médica, são bons exemplos de trabalhos de pesquisa mais elaborados. Como se pode perceber, os autores possuem formação acadêmica e científica na área em questão, o que favorece a realização do trabalho em moldes mais científicos. A área médica, ao nosso ver, é muito promissora para pesquisas de interesse espírita por lidar diretamente com o ser humano.

Os exemplos que apresentamos na aula 5  sobre contribuições da matemática, são trabalhos voltados para a divulgação no meio espírita de pesquisas científicas na área de Matemática Aplicada cujas consequências são de interesse espírita. Buscamos citar algumas referências originais (artigos científicos) dos trabalhos de pesquisa para que o leitor possa verificar que se tratam de pesquisa profissional e para que nosso trabalho tenha o respaldo científico.

Um conjunto de artigos de grande valor científico, filosófico e doutrinário são de autoria do Prof. Silvio Chibeni. Eles podem ser obtidos na ‘homepage’ da referância [5].

Alguns outros trabalhos serão apresentados em aulas futuras de acordo com a oportunidade. Na próxima aula comentaremos, a título de exemplo, sobre as pesquisas do Dr. Masaru Emoto com os cristais da água. Esse trabalho tem sido considerado por muitos grupos espiritualistas (incluindo os espíritas) como sendo científicamente comprovado quando esse não é o caso.

 

Referências

[1] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição (1995).

[2] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a Edição, Rio de Janeiro (1996).

[3] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 62a Edição, Rio de Janeiro (1996).

[4] R. Eisberg, R. Resnick, Física Quântica, Átomos, Moléculas, Sólidos, Núcleos e Partículas, Tradução de Paulo Costa Ribeiro, Enio Frota da Silveira e Marta Feijó Barroso, Editora Campus, 21ª Tiragem, (2003).

[5] http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482/