Fonte: Boletim GEAE 12(484), 09/11/2004

 

Curso Ciência & Espiritismo

Alexandre Fontes da Fonseca, Brasil

1. MÉTODO CIENTÍFICO

 
Todas as atividades na vida requerem métodos para a sua execução. Desde o simples ato de respirar aos mais complexos mecanismos de produção em uma indústria, utilizam métodos de execução. Como não poderia deixar de ser, a prática científica requer a definição de métodos específicos tanto para o estudo básico de uma disciplina científica (métodos pedagógicos) quanto para o desenvolvimento, propriamente dito, do conhecimento científico. É sobre este último tipo de método que vamos discutir nesta aula.
A expressão “método científico” se refere, portanto, ao conjunto de orientações e passos pelos quais uma pesquisa científica deve passar para que seus resultados sejam válidos. O método científico envolve o uso de ferramentas especiais que, muitas vezes, só servem para as pesquisas em uma única disciplina científica ou em uma única área específica dentro dela. Essas ferramentas que compõem o método científico de cada ciência são definidas pelo paradigma ou núcleo teórico central (ver aula anterior) da mesma. Por exemplo, em Física, os desenvolvimentos teóricos devem seguir com muita fidelidade as propriedades e leis matemáticas. Em Biologia, eles devem seguir os conceitos e funções biológicas já estudados anteriormente.
 
As experiências devem ser criadas e preparadas de modo a garantir que os efeitos observados só dependam das causas mais relevantes que estão sendo estudadas. Enfatizamos que são os paradigmas que determinarão as causas mais relevantes para cada fenômeno. Desta forma, percebemos que não existe uma receita de bolo para o método científico. Não existe um único método que seja válido e aplicável a todo e qualquer fenômeno ou todo e qualquer problema teórico de qualquer ciência. Mas o que é comum a todos os casos é a necessidade de seguir-se um método que garanta, qualifique e/ou quantifique a validade do resultado do trabalho de pesquisa. Atribui-se ao método científico a função de fornecer o nível de exatidão ou de imprecisão (dependendo do caso) dos resultados das pesquisas. É essa informação que torna o resultado da pesquisa válidoaplicável ou útil dentro de determinados limites (também em acordo com o paradigma da ciência).

 

A diferença entre a mera especulação intelectual e um resultado verdadeiramente científico é que o segundo foi obtido aplicando-se um método científico na sua análise e desenvolvimento.

 

Como dito na aula anterior, a criatividade gera idéias que são, então, especulações intelectuais. Quando se usam as ferramentas do método científico da respectiva área do conhecimento para estudar e desenvolver essas especulações, os resultados da pesquisa se tornam científicos. O que não pode acontecer é considerar idéias iniciais como verdades científicas mesmo que elas se refiram a temas científicos.

 
Allan Kardec definiu um método que claramente merece o adjetivo científico, para análise das mensagens provindas do plano superior. Elas visam garantir que o conteúdo das mesmas tenha validade e utilidade. Primeiramente, devemos aplicar o bom senso para ver se o conteúdo fere princípios básicos conhecidos sobre a moral, os costumes, a ciência e a natureza. Em seguida, nos casos onde o conteúdo não pode ser avaliado por nossos conhecimentos, deve-se aplicar o consenso universal dos espíritos que diz que “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. ” (Ítem II da Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo [1]. Fonte em itálico original). Toda a codificação espírita teve base na aplicação destes dois métodos.
Já dissemos que uma função do método científico é atribuir valores aos resultados. Existe um consenso de que toda teoria deve ser verificada através dos fatos, mesmo que essa verificação se dê em acordo com os princípios do núcleo teórico central ou paradigma da disciplina científica. Nesse aspecto, Kardec foi claro (ítem VII da Introdução de O Livro dos Espíritos [2]): “Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. Não vemos todos os dias as mais opostas opiniões serem alternativamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplicaNa ausência dos fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado. ” (grifos nossos).

 

Portanto, a verificação das teorias através dos fatos, sejam eles provocados através de experimentos controlados ou, simplesmente, observados na natureza, faz parte daquilo que chamamos de método científico.

 

Abaixo discutiremos alguns outros aspectos sobre ciência e sobre como se define o método científico no caso de uma pesquisa dita interdisciplinar, isto é, que envolve objetos de estudo que pertencem, ao mesmo tempo, a mais de uma disciplina científica.

 

2. UM POUCO MAIS SOBRE CIÊNCIA

 

A estrutura de uma disciplina científica, apresentada na aula passada, composta por um núcleo teórico central, um conjunto de hipóteses auxiliares que fazem a ponte entre o núcleo central e os fatos e um conjunto de regras negativas e positivas que mantém o processo em desenvolvimento, constitui aquilo que Imre Lakatos (filósofo da ciência) designou como sendo um programa científico de pesquisa [3]. Segundo Chibeni a exigência fundamental de um programa científico de pesquisa é que a sua estrutura teórica forneça previsões corretas para novos e diferentes fatos. Que diríamos de um serviço de meteorologia que não acertasse uma de suas previsões ou se as pontes caíssem na passagem do primeiro automóvel? No mínimo diríamos que a Meteorologia e a Engenharia não são ciências! Ainda bem que ambas são, de fato, nobres ciências cujo desenvolvimento tem oferecido mais conforto em nossas vidas.

 

Uma boa teoria científica deve possuir, portanto, as seguintes características [3]: i) consistência – a teoria não pode conter contradições; ii) coerência – a teoria deve possuir princípios que se apoiam mutuamente; e iii) abrangência – a teoria deve explicar o maior número de fenômenos possíveis dentro do conjunto de objetos estudados pela disciplina científica. A função do método científico, portanto, é assegurar que essas três condições são satisfeitas em qualquer trabalho de pesquisa científico.

 

O nível de desenvolvimento atingido pelas disciplinas científicas aliado à descoberta ou percepção de que muitos fenômenos da natureza possuem características e propriedades pertencentes a mais de uma disciplina, estão incentivando o desenvolvimento de projetos de pesquisainterdisciplinares ou multidisciplinares, isto é, que envolvem mais do que uma disciplina científica. Pesquisas sobre a vida, sobre novos materiais e sobre questões de ordem social e econômica, por exemplo, são exemplos de temas multidisciplinares. Nesses casos o método científico que trará informação sobre a validade dessas pesquisas incluirá métodos específicos de todas as disciplinas científicas envolvidas. O aspecto coerência deve ser satisfeito. Se, por exemplo, em uma pesquisa sobre a estrutura da molécula do DNA que envolve, ao mesmo tempo, Física, Química, Matemática e Biologia, culminar com um resultado que contradiz os princípios biológicos, por exemplo, esse resultado não terá valor pois estará incoerente com o núcleo central de uma das disciplinas científicas básicas. Desta forma, os rigores dos métodos de pesquisa de todas as disciplinas envolvidas devem ser aplicados de modo a obter-se resultados que sejam válidos em todas as áreas envolvidas.

 

Qualquer projeto de pesquisa espírita, ou de interesse espírita, teórico ou prático, que envolva conceitos e idéias provenientes de outras disciplinas científicas (como a Física que, ultimamente, está na moda) tem, por definição do conceito de ciência, que satisfazer aos paradigmas ou núcleos centrais de cada uma delas, incluindo os da ciência espírita. É imprescindível aplicar-se os rigores dos métodos de pesquisa, ou métodos científicos, de cada disciplina científica e do Espiritismo, de forma coerente e consistente de modo a produzir-se um resultado que tenha validade ouutilidade. Isso distingue a mera especulação de um verdadeiro resultado científico. É importante lembrar que o trabalho de Kardec seguiu todos esses rigores. Kardec, diante dos fenômenos das mesas girantes, primeiro analisou o problema sob a luz dos conhecimentos científicos de sua época, aplicando os rigores pertinentes ao fenômeno. Somente depois de verificar que o fenômeno apresentava uma realidade espiritual por detrás, é que Kardec mudou o rumo de suas pesquisas. Além disso, Kardec, de forma muito sábia e científica, não propôs, com base na ciência de sua época, teorias para determinados tópicos espíritas como, por exemplo, a constituição íntima da substância que compõe o perispírito. Neste caso, é importante mencionar que Kardec não teria como verificar nenhuma proposta desse tipo experimentalmente ou através da observaçao de fatos. O máximo que Kardec fez foi “emprestar” dos conhecimentos científicos de sua época alguma terminologia ao usar, por exemplo, a palavra “fluidos” em analogia àquilo que se acreditava existir para a eletricidade e o magnetismo.

 

Na próxima aula, começaremos a falar sobre algumas propostas de pesquisa científica dentro, apenas, dos paradigmas do Espiritismo ou da Ciência Espírita. Falaremos ainda sobre como os trabalhos de pesquisa científica são analisados antes de serem divulgados para a comunidade científica. Discutiremos um pouco mais sobre a idéia de comprovação científica de algum conceito ou resultado novo.

 

Referências

 

[1] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a. Edição (1996).
[2] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, (1995).
[3] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice aspecto Parte II 2003, Reformador Setembro, pp. 38-41.