O Espiritismo na Alemanha (Parte I) 

 

                                                                                     Andrea Menescal

 

DO JOSE CID, SOBRE O TEXTO "ESPIRITISMO NA ALEMANHA”

 A partir desta edição começamos a publicar uma serie de artigos, escritos pela Andrea Menescal, que conta para nós o que é o Espiritismo na Alemanha.

 A Andrea já é velha conhecida nossa, e com seu jeito simples de falar e escrever nos envolve com sua história. Vale a pena saber quais são suas impressões, como tem sido o seu convívio com o Espiritismo em um pais tão diferente do Brasil, como a Alemanha.

 Leitura recomendada, sobretudo para quem esta morando naquela região, ou que pensa em ir passear por lá; para os outros é uma lição de como sempre é possível viver a Doutrina Espírita, mesmo estando longe "dos seus"...

Fonte: Boletim GEAE, 07(144), julho 1995


Primeiramente, algumas palavras sobre o termo "Spiritismus".

 O termo "Spiritismus" na Alemanha tem uma conotação extremamente negativa e mencionar essa palavra para qualquer alemão (ou alemã) é criar um certo clima de aversão... ou talvez até de medo de você! Por mais estranho ou cômico que isso possa parecer, o alemão não conhece o Espiritismo como religião.

 Para a grande maioria essa palavra está relacionada com mesas girantes, objetos que se movimentam, fantasmas, vozes do "além" (onde esse "além" é mais associado com o inferno), etc. Um dia, por acaso, resolvi pegar um bilhetinho de umas senhoras na rua (essas que distribuem panfletos religiosos) e eis que logo ao abrir um dos panfletos - que elas fizeram questão de me dar e me disseram que era muito importante - encontro a palavra "Spiritismus"! O titulo do panfleto era "Quem realmente domina o mundo?".

 Bom, não vou dar muitos detalhes mas gostaria de (tentar) traduzir aqui a parte do texto relacionado ao Espiritismo para que as pessoas tenham uma ideia de como ele é visto aqui na Alemanha.

Embora seja o panfleto da "Watch Tower Society" e do Circulo Bíblico eu arrisco em dizer que esta é a visão que muitos alemães têm sobre o que é o Espiritismo. (aos que sabem alemão eu peço mil desculpas pela tradução imperfeita. Estou sem o meu dicionário aa também mas vou tentar mesmo assim).

 "Negar espíritos maus.

 Esses dominadores maus e "invisíveis" do mundo estão determinados a confundir toda a humanidade e afastá-la da ligação com Deus. Eles fazem isso, entre outras coisas, em que eles divulgam a ideia da vida após a morte, embora Deus tenha mostrado bem claramente, que os mortos não têm consciência (dass die Toten ohne Bewusstsein sind) (1. Mose 2:17; 3:19; Ezequiel 18:4; Salmo 146:3,4; Prediger (em portugues???) 9:5,10). Um espírito mau imita a voz de um morto e através de um médium ou como "vozes" de um lugar invisível ele fala com parentes ou amigos. As "vozes" dizem ser o "morto"; mas na verdade trata-se de um demônio.

 Caso você ouça uma dessas "vozes", não se deixe confundir. Não se deve de maneira alguma aceitar o que elas dizem, mas sim repetir as palavras que Jesus dizia: "Sai fora, Satanás!" (Mateus 4:10;

Jakobus (??) 4:7). Muitas pessoas, por curiosidade, procuram a ligação com o mundo dos espíritos e dessa maneira envolvem-se com maus espíritos. Tais ligações recebem o nome de Espiritismo ("Spiritismus"), e Deus alertou seus seguidores de toda forma de Espiritismo. (...)

 Uma vez que através do Espiritismo fica-se sobre a influencia do Demônio, deve-se evitar praticas espíritas, não importando o quão divertido e emocionante elas possam parecer. Entre estas praticas estão: ver na bola de cristal, astrologia, quiromancia, etc.

Demônios provocam em casas, nas quais eles se utilizam para seus efeitos, também barulhos e outros fenômenos físicos.” (Fim da citação).

 É interessante observar vários aspectos que essa mensagem nos traz.

 Eles não negam a existência de espíritos maus, portanto, não negam a existência de um "plano espiritual", por assim dizer. Só que eles só consideram espíritos "maus"!

 A visão do que seja o Espiritismo é realmente muito limitada.

Existe uma falta muito grande de informação... ou de desinteresse!

 Jose Cid, não sei se você se lembra, mas uma vez eu falei algo em ter receio de falar que era espírita aqui na Alemanha.

 Não que eu fosse ser presa ou ter desvantagens (essas talvez sim) mas é que muitas vezes senti que causaria um tremendo constrangimento nas pessoas. Não sei se você me entende mas sentia que... é como se elas não estivessem preparadas para receber esse tipo de informação e que isso causaria grandes problemas numa aproximação entre mim e elas.

 Claro que com o tempo, conhecendo um pouco mais a maneira das pessoas aqui, pude me abrir um pouco mais e falar sobre o assunto espiritismo como algumas pessoas. Mas confesso que muitas não se interessaram nem um pouco em saber um pouco mais do que se tratava.

Creio que até hoje o fato de eu ser espírita não está bem trabalhado para algumas das pessoas com quem tenho boas relações.

 Um parênteses: esse receio, tenho que dizer, não acontece somente por parte de alemães. Experimentei isso mesmo de um brasileiro.

 Com isso noto que existe um desconhecimento muito grande dessas pessoas do que vem a ser Espiritismo, reencarnação, vida após a morte, etc.

 No caso da Alemanha, é importantíssimo considerar que existe uma espécie de Teocracia. Embora esteja explicitamente escrito na Constituição da Alemanha que isso não existe, a pratica é diferente. É impressionante ver como as Igrejas católica e protestante têm um enorme poder na politica e na sociedade. Por isso, eu arrisco dizer que também a maneira de como o Espiritismo é visto na Alemanha é um reflexo do que essas Igrejas transmitem em termos negativos.

 Interessante considerar também que aqui acontece mais ou menos o contrario do que se passa no Brasil. A Igreja Católica é muito conservadora e a Igreja Protestante é mais progressista.

 Agora um fato interessante que se passou comigo:

 Como meu marido é católico resolvemos batizar o nosso filho Bernardo aqui na Alemanha, uma vez que nem tão cedo iriamos ao Brasil os três juntos e que o padrinho e a madrinha estavam por aqui. Conheci na universidade um padre que morou vinte anos em São Paulo e ele se propôs a fazer o batismo em português. Com isso, ele ficou responsável pelo preenchimento dos formulários necessários e do contato com a igreja ao lado da minha casa, onde gostaríamos de batizar o nosso filho.

 Na questão da religião preenchemos... meu marido católico...eu, espírita. Alias, o padre não escreveu nada. Ele falou que ia falar com o superior lá da igreja para saber se não tinha nenhum problema em batizar o nosso filho lá por eu não ser católica. Se eu não fosse nada, ou de qualquer outra religião, tenho cá as minhas duvidas se esse tipo de consulta ocorreria.

 Através desses contatos do "nosso" padre com o padre "superior" (que era o responsável pela igreja onde batizaríamos o nosso filho) este ultimo tomou conhecimento dos nossos dados e falou que até gostaria de estar presente ao batismo. Tenho que dizer que ele expressou esse desejo não pelo fato de eu ser espírita, mas sim pelo fato de meu marido, nosso filho, eu e os padrinhos sermos todos brasileiros e, um de cada canto do mundo, termos nos juntado aqui em Bielefeld para batizar o nosso filho.

 Bom, batizamos o nosso filho sem problemas, numa cerimonia simples e muito bonita.

 Com isso, ficou então registrado para o padre "superior" que a mãe do Bernardo era espírita ou, como eles diriam, "mexe com espiritismo". Isso não teria problema algum ou não levaria a nada se tudo terminasse por aí.

 Contudo, comecei a frequentar os cultos durantes as manhas antes de ir para a universidade e num domingo eu resolvi ir conversar com o padre responsável (o que eu chamei antes de "superior").

Apresentei-me e falei que eu era a mãe do Bernardo. Ele se lembrou do "caso" e foi muito simpático.

 Agora vem o engraçado!!!

 Na semana que começava, esse padre foi quem fez o primeiro culto de manhã. Patati, patata... na parte em que eles fazem orações especiais do dia, de acordo com o desejo deles, eis que, para minha enorme surpresa, ele pronuncia as seguintes palavras: "vamos rezar para as pessoas que estão no espiritismo, que elas possam encontrar o caminho de Deus".

 Eu abri os olhos... olhei para ele e foi automático expressar um sorriso no rosto!! Um sorriso mais de espanto e ironia pois, tenho que dizer, as palavras dele em sua oração foram muito mais de repreensão que de compreensão e ecumenismo (!!!).

 Dois dias depois quem fez o culto foi um vigário, um rapaz jovem! Para minha surpresa e "encanto"... quase da mesma maneira que o padre "superior", ele rezou pelos espíritas!!!

 Creio que a minha ida frequente a igreja deles lhes causou "problemas internos" e constrangimentos, mas nem por isso deixei de frequentar os cultos. Hoje em dia eles são super atenciosos e simpáticos comigo. E eu... continuo, por assim dizer, mais espírita do que nunca!!