História do Espiritismo (Parte V - Final) 

 

                                                                                     José Basilio

 

 1914 - O ESPIRITISMO E A GUERRA

 As mortes ocorreram em quase todas as famílias despertando um súbito interesse concentrado na vida após a morte. Muitas pessoas procuravam ansiosas saber se era possível a comunicação com os entes queridos que haviam partidos.

 A imprensa, pressionada pela opinião pública, teve que fazer publicar casos de soldados que se comunicavam após a morte física.

 A primeira guerra foi prevista em várias comunicações de espíritos por toda a Inglaterra. Ficou comprovado também que há longa margem nas previsões que pode ser afetada pela ação e vontade humana.

 Um profundo aspecto da guerra mundial esta envolvido na consideração de que a guerra na Terra é apenas um aspecto das batalhas invisíveis em planos diferentes onde se chocam os poderes do Bem e do mal.

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 ASPECTO RELIGIOSO DO ESPIRITISMO

 O povo hebreu foi o escolhido para a realização sagrada de constituir uma religião francamente monoteísta, mais avançada e verdadeira, que representaria o fulcro luminoso do conhecimento espiritual do futuro, com base na promessa divina feita ao patriarca Abraão, na cidade de Ur, na Mesopotâmia.

 Cativo por 400 anos dos egípcios, nas terras de Goshen, em trabalhos forçados, surgiu para esse povo um missionário poderoso e iluminado - Moisés - que dali o libertou, conduzindo-o a uma terra de promissão, as margens do rio Jordão, em Canaã.

 Foi-lhe outorgado um código avançado de conduta moral - o Decálogo - e um deus único - Jeová - protetor e defensor, que se manifestava de forma tão evidente e objetiva, em todas as ocasiões graves, que se radicou para sempre no coração desse povo. Suas leis religiosas eram rigorosas, inflexíveis e tão fortes, que puderam mantê-lo unido e fiel através dos tempos e das mais terríveis vicissitudes.

 Não eram leis de redenção, mas de aglutinação em torno a uma realidade única, a um poder cósmico soberano e uno, a um código que levasse a realizações redentoras, futuramente.

 Essa foi a missão de Moisés, o missionário hebreu: preparar um povo para a primeira religião monoteísta; limpar os caminhos para o advento de um novo enviado divino; arrotear o solo para uma semeadura de maior expressão evolutiva.

As comunicações mediúnicas, já naquela época, eram abundantes. Mas tamanhos eram os abusos em evocar indiscriminadamente os espíritos, que Moisés proibiu estas atividades.

 Veio então Jesus, mais tarde, na Palestina; o excelso Enviado, que pregou e praticou a redenção pelo amor, a unidade em Deus, como Pai.

 O substrato de seu código moral, denominado Evangelho ou Boa Nova, esta contido no Sermão do Monte, cujas regras são, ao mesmo tempo, uma libertação pelo conhecimento e uma realização redentora.

 É cultuado no mundo por centenas de milhões de adeptos, mas jamais foi cumprido no seu verdadeiro sentido cósmico e, por isso, a humanidade não pode ser ainda encaminhada a seus superiores destinos espirituais.

 O missionário nazareno, uma verdadeira manifestação do Cristo Planetário, foi imolado na cruz pelo povo escolhido, aquele mesmo povo preparado para recebê-lo e amá-lo; e os seus ensinamentos, pouco mais tarde, foram utilizados para dominação religiosa, visando interesses meramente humanos.

 Mas encerrou-se o ciclo? Não. Na sua onisciência das coisas futuras, sabendo que seus ensinamentos e seu testemunho de amor, na morte física, não bastariam para esclarecer as consciências, o Cristo prometeu, como pastor e guia da humanidade, não esmorecer nos esforços de redenção, não como naqueles dias, descendo a Terra ele mesmo, mas enviando novos missionários para completar a obra, antes que as sombras do encerramento do ciclo se estendessem sobre o mundo; essa mesma obra que os discípulos e apóstolos, logo após seu regresso aos Planos Espirituais, tentaram realizar na Terra com a difusão do Evangelho, em várias partes do mundo de então, oferecendo-se como testemunhos vivos de sua autenticidade e do seu poder redentor.

 O sacrifício desses servidores fiéis não foi inútil porque os ensinamentos se perpetuaram no Tempo, difundiram-se pelo mundo, e serviram de base a criação do Cristianismo Primitivo, que exigia a vivência, segundo a essência do ensinamento.

 Conquanto tenha sido substituído mais tarde, como já o dissemos, por organizações religiosas dogmáticas, mais que tudo radicadas a interesses humanos, a doutrina verdadeira não desapareceu - "minhas palavras", disse o Cristo, "não passarão" - porque viriam mais tarde a ser revividas em espírito e verdade - "Deus e espírito e em espírito e verdade deve ser adorado" - por uma religião não de homens, mas de próprios discípulos e mensageiros.

 E veio, em nossos dias, como Doutrina dos Espíritos, cuja tarefa é reviver esse cristianismo primitivo. Essa Doutrina hoje se expande irresistivelmente pelo mundo, sem fronteiras e, como antes, nos tempos apostólicos, sua finalidade e: 1) esclarecer as mentes sobre as verdades espirituais; 2) operar nos homens as transformações morais indispensáveis a sua redenção, a sua integração nos mundos espirituais superiores.

 Reviver, pois, o cristianismo primitivo, na essência dos seus ensinamentos e nos termos expressos pelo Divino Mestre, eis a sua gloriosa tarefa, em pleno curso em nossos dias.

 O Espiritismo, portanto, não é simplesmente um conhecimento teórico ou especulativo: é iniciação em verdades maiores e ação plena e efetiva em bem da coletividade. Não é somente um esforço intelectual, uma pesquisa de caráter filosófico, ou demonstrações de fenômenos "estranhos", com abrangência, mais ou menos profunda, nas leis naturais, mas devotamento ao próximo, auxilio sem nenhuma discriminação, confraternização, demonstrações legitimas de amor universal, para que assim os homens se redimam do passado culposo e se aproximem de Deus. É realização espiritual, individual e coletiva, no sentido elevado e verdadeiro; doutrina essencialmente redentora, porque tem a força do convencimento pelos fatos.

 Os escritos dos chamados Pais da Igreja estão repletos de ensinos e práticas espíritas. Os primeiros cristãos viviam em íntimo e familiar contato com os invisíveis. Sabiam como fato absoluto que a morte não significa mais que a passagem para uma vida mais ampla.

 Hoje, algumas religiões afirmam que somos descendentes de Adão e Eva. A Antropologia, uma ciência oficial, tem provas concretas de que o homem vem evoluindo através das espécies há milhões de anos.

 Estas mesmas religiões negam a existência dos espíritos, e assim como a estória de Adão e Eva, pouco de substancial oferece aos seus sectários.

 Precisamos pisar em "terra firme", ou seja, em idéias e fatos que sejam suscetíveis de comprovação. Mas quantas pessoas acreditam em Adão e Eva? e que espírito é coisa do "demo" ?. São aqueles que creem sem questionar. É a fé cega, que rende a ilusão do crente e o bolso cheio de dízimos para os seus líderes.

 Questionar é preciso. E buscar provas, mais ainda. É mais cômodo ficar repetindo o que os outros disseram, mas isto contrapõe com o uso racional da inteligência. Se alguém discorda de alguma coisa em sua religião, tem o direito e o dever de se manifestar e fazer uso público de seu raciocínio lógico.

 A liberdade de pensamento e ação é a tônica que deve orientar a vida do cristão.

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 TESTEMUNHOS

 Os testemunhos do século passado não desapareceram com o tempo. Nem os fatos. Nem as experiências.

 Os grandes médiuns, como os grandes cientistas, os grandes exemplos, os grandes testemunhos estão iluminando os caminhos que os novatos vão trilhar.

 Para a Psicologia, apesar de estar num estágio inicial, veio dar como absolutamente demonstrado aquilo que se tinha como falso.

 Quanto à literatura moderna, o que se está vendo são cientistas, psicólogos, filósofos, proclamarem já a independência do espírito, e até a sobrevivência, o que seria formidável escândalo no passado.

Veja-se Bergson, Hansdriech, Primot, Frazer, Bertrand de Cressac, Montadon, Nicola Pende, Rhine e outros. Os que se falaram deles já não estão a base do testemunho do passado.

 No livro "A Alavanca da Mente", Joseph Banks Rhine declara que "as hipóteses relativas ao fenômeno psíquico não são superiores a hipótese espírita", e "é no problema da imortalidade que melhor se tem encontrado a Religião e a Parapsicologia".

 Os fatos hoje tidos por grande novidade em Parapsicologia, foram já objeto de estudos e deles se ocuparam os maiores sábios do Velho e do Novo Continente. Richet deu-lhes o nome de Metapsíquica.

 Vários padres e religiosos manifestaram-se favoravelmente ao Espiritismo e suas verdades. Eis alguns deles: - rev. George Vale Owen, recebeu mensagens espíritas que reuniu numa obra em quatro volumes denominada "A Vida Além do Véu";

- rev. W. Stainton Moses psicografou os "Ensinos Espiritistas"; e outras obras.

- rev. G. Maurice Elliot e outros escreveram diversos e apreciados livros espíritas;

- O pastor islandes Haraldur Nielsson, teólogo em Reykjavik escreveu: "Minhas Experiências Espíritas" e "O Espiritismo e a Igreja";

- O Padre Marchal também defendeu o Espiritismo diante de seus colegas.

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 DIFERENÇA ENTRE PARAPSICOLOGIA E ESPIRITISMO

 A principal diferença entre a Parapsicologia e o Espiritismo é que a primeira tem sido até agora especulativa, enquanto que o segundo interpreta o fenômeno, desvendando-lhe a causa. O Espiritismo vai à fonte e a Parapsicologia apanha a corrente no meio do caminho.

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 O ESPIRITISMO NO BRASIL

 O termo "espírita" ficou definido para os que adotam a doutrina codificada por Allan Kardec, por ocasião em que suas obras foram escritas, ou seja, há mais de 120 anos.

 No Brasil o Espiritismo assume um papel de destaque em nossa sociedade. A organização dos vários centros e associações credenciados fica a cargo de instituições como a Federação Espírita Brasileira - FEB, a Federação Espírita do Estado de São Paulo - FEESP, a U.S.E. e outras.

 O Espiritismo é baseado, como dissemos na codificação Kardeciana e tem por base a prática do lema: "Fora da Caridade não há Salvação", por isso vemos na maioria dos centros espíritas credenciados funcionarem as creches, abrigos para a velhice, escolas para alfabetização, campanhas visando a caridade e obras assistenciais sem cobrança de nenhuma taxa ou remuneração.

 Mas não é só isso. O verdadeiro espírita vive sua auto-reforma, a derrotar constantemente o homem velho que existe em seu interior, esforçando-se para vivenciar as lições do Cristo. Ele sabe que é imperfeito, mas permanece na busca contínua e silenciosa da sua harmonia com o Cristo.

 Dizer que o Espírita não é cristão, ou que não aceita Jesus em seu coração é, no mínimo, ignorar ou desconhecer a Doutrina. O Espírita não só é cristão, como esta constantemente se esforçando por praticar as lições deixadas pelo Mestre Nazareno.

 Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas.

 Às vezes, opositores da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar pessoas do Espiritismo.

 Os grupos umbandistas, africanistas e neo-espiritualistas em geral se intitulam de espíritas. Note que não esta agora em discussão a boa intenção de inúmeros médiuns dispostos a ajudar seu semelhante, mas a identificação ideológica desses movimentos e do próprio Espiritismo.

 Algum tempo atrás, o CONDU - Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda, no Rio de Janeiro lançou uma campanha para que suas tendas assumissem a definição de "umbandistas" no frontispício das sedes.

Infelizmente parece que este projeto não logrou resultado.

 Seria de interesse geral que os órgãos federativos da Umbanda, Candomblé, Santo Daime, União do Vegetal e demais agremiações neo-espiritualistas e mediunistas, retirassem o titulo "espírita" de suas fachadas.

 A imprensa brasileira é usualmente levada em utilizar essas palavras em noticias que envolvem práticas mediúnicas e presença de entidades espirituais. É assim que se tornam "espíritas" os mais chocantes casos de mistificação, fanatismo, magia negra, debilidade mental, sacrifícios de animais e até de seres humanos.

 Há também as cartomantes, quiromantes, curadores, jogadores de búzios que se dizem "espíritas".

 Nosso país é um imenso cabedal de mediunidade. As pessoas são pré-dispostas a aceitação dos fenômenos mediúnicos e desde pequenas as nossas crianças são levadas aos médiuns para que recebam algum beneficio (benzedeiras).

 Na Bahia, por exemplo, a Igreja não sobreviveria sem os terreiros de Umbanda e Candomblé. E o imenso sincretismo religioso.

Muitos dos que se dizem católicos frequentam a igreja e visitam regularmente os terreiros das religiões afro-brasileiras.

 Não há como negar que a mediunidade faz parte do nosso dia-a-dia.

 Temos médiuns espíritas exemplares: Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, Zibia Gasparetto, Zilda Gama, e muitos outros.

 Quem não conhece ou ouviu dizer de alguém que foi até Uberaba e recebeu uma linda mensagem de seu ente querido desencarnado, trazendo-lhe palavras de conforto e provando delicadamente sua identidade? A própria imprensa tem divulgado vários casos deste naipe, colocando em destaque a fabulosa mediunidade do nosso querido Chico Xavier que, sempre humilde, fica a agradecer a presença de todos os que vão procurá-lo.

 Dentre essas pessoas, há várias de conhecimento público, como divulgou a revista "Isto é" de 18/05/94: o então senador Mario Covas contou que na passagem de 1975 para 1976 a filha Silvia, de 19 anos de idade, foi vítima de acidente no qual veio a falecer.

Mario Covas procurou o médium, que na ocasião estava em Santos. A mensagem confortou Covas e sua esposa Lila.

 Chico nunca recebeu um centavo pelo seu trabalho mediúnico.

Cumpre religiosamente o "Dar de graça o que de graça recebemos".

Põe em prática os ensinamentos do Cristo e por isso é um médium feliz, como felizes seremos quando deixarmos de lado as teorias e passarmos a praticá-las em favor de nossos semelhantes menos favorecidos.

 Chico mora na periferia de Uberaba - MG e vive de sua aposentadoria no Ministério da Agricultura.

 CONCLUSÃO

Apesar de todos os obstáculos que o Espiritismo tem encontrado, ou toda a oposição que foi feita a Metapsíquica, ou a deformação que querem impor, a Parapsicologia, a Ciência caminhará.

 Diremos novamente como Kardec: "A Ciência marchará com os homens, sem os homens e apesar dos homens".

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 Bibliografia:

 ------------- História do Espiritismo - Arthur C. Doyle

 Casos e Coisas Espíritas - Francisco K. Werneck

 Obras Póstumas - Allan Kardec

 Enciclopédia Barsa

 Revista Presença Espírita - Centro Esp. Caminho da Redenção - Salvador – BA

 O Mistério do Bem e do Mal - J. Herculano Pires

 O Espírito e o Tempo - J. Herculano Pires

 Na Cortina do Tempo - Edgard Armond

 Jornais: A Voz do Espírito e Folha Espírita.

Hipóteses em Parapsicologia - Carlos Imbassahy

 Para saber mais:

 ---------------- Evolução para o Terceiro Milênio - Jorge Toledo Rizzini – editora Edicel.

Experiências Psíquicas Além da Cortina de Ferro - Sheila Ostrander

 e Lynn Schroeder edit. Cultrix

 O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - editora IDE ou LAKE

 Panorama sobre a Reencarnação (2 volumes) - Hans Tendam – editora Summus

 Agonia das Religiões - José Herculano Pires - editora Paideia

 

Fonte: Boletim GEAE, 10(159), outubro 1995