História do Espiritismo (Parte I) 

 

                                                                                     José Basilio

 

 I N T R O D U Ç Ã O

Existe dificuldade para se determinar uma data para o aparecimento do Espiritismo. Sabemos que os fatos espíritas existiram desde todos os tempos, mas os espíritas ingleses e americanos costumam indicar como data inicial do movimento espírita moderno o dia 31/03/1848, que assinala o episódio mediúnico de Hydesville (irmãs Fox).

 Existe uma época que podemos chamar de pré-história do Espiritismo, com os fatos da Antiguidade e da Idade Media, e uma época de preparação do advento do Espiritismo, que foi a de Emanuel Swedenborg (1688-1772).

 A Igreja, cujos dirigentes ensinavam uma vida após a morte (ressurreição, etc), mas que nunca souberam, puderam ou quiseram provar, passou a atacar ferozmente os fatos e os únicos indivíduos através dos quais essa prova é cientificamente possível, e que o faziam e o fazem sem qualquer intuito de combate ou de desdouro as organizações religiosas. Perdia a Igreja a grande oportunidade de demonstrar a existência da alma e o seu cortejo de consequências e, do mesmo passo, de levar os seus profitentes para uma nova etapa, além de a eles anexar os que em nada acreditavam, passando-os da fé imposta, do desinteresse e da negação, para uma fé sistemática, para uma fé raciocinada, na qual os próprios dogmas, e os ritos viriam a ser respeitados como valores históricos e como símbolos que tinham tido a sua função no espaço e no tempo e dos quais os Espíritos se iam emancipando, a medida de sua mesma evolução. Do outro lado, atraídas pelos fatos, tomando contato com os seus mortos queridos, as massas menos cultas, ou mesmo incultas, foram, por um compreensível sincretismo religioso, que a ortodoxia não tolerava, mas que, a fina forca, aquelas queriam que subsistisse, transformando o Espiritismo numa religião ritualística.

 Se, de um lado, o despreparo geral as empurrava nessa direção, foram desestimuladas pelas excomunhões, pela pressão politica exercida pela Igreja contra as massas espíritas e principalmente contra os médiuns. E o Espiritismo, que de inicio atraíra a atenção das camadas mais cultas, pouco a pouco foi sendo por estas abandonado, ou praticado às ocultas, para que se não comprometessem interesses materiais - sobretudo os políticos - dado o prestigio que a Igreja desfrutava junto ao poder civil, nos países em que havia separação legal entre ela e o Estado.

 Então a doutrina caiu nas mãos do povo e a sua pratica se alterou.

 Mas houve uma diferenciação entre neolatinos e anglo-saxões.

Nos países de origem latina, onde predomina a igreja Católica - de todas a mais intolerante - os espíritas foram excluídos de seu seio. E, teimosamente, ela apresentou aquele do qual poderia ter feito o seu melhor aliado como um adversário temível, como uma nova religião, embora lhe faltassem os requisitos essenciais de uma religião, a saber: um conjunto de dogmas, um ritual e uma hierarquia sacerdotal. De maneira que, se luta existe entre ela e o Espiritismo, não foi este quem a provocou.

 Mas nos países saxônicos a coisa é diferente, os profitentes da religião estão mais intima e solidamente ligados à sua igreja: são eles e não os pastores que a administram e desenvolvem as obras assistenciais; com um ritual mais pobre, enriquecem o Espírito pelo estudo. Assim, o surgimento dos fenômenos espíritas não foi ignorado nem amaldiçoado, mas recebido como uma prova da sobrevivência da alma e uma confirmação dos ensinos bíblicos.

 Os anglo-saxões, particularmente os ingleses e americanos, aceitaram a revelação espírita com uma restrição, não admitindo o princípio reencarnacionista. Por muito tempo, esse fato serviu de motivo a ataques e criticas ao Espiritismo, o que não impediu que o movimento seguisse naturalmente o seu curso. A codificação Kardeciana, cujos princípios giram praticamente em torno da lei da reencarnação, foi repelida inicialmente pelos anti-reencarnacionistas.

 No movimento espírita, como em todos os movimentos, as coisas vão se definindo aos poucos, através do tempo, não se mostrando logo com a precisão necessária. Somente agora é que a figura de Kardec, reconhecida há muito, nos países latinos, como codificador do Espiritismo, vai se impondo também, nas suas verdadeiras dimensões, ao mundo anglo-saxão.

 Todas as descobertas e todos os empreendimentos têm a sua razão de ser e só vão aparecendo, a proporção que se possam adaptar ao meio. Os choques do passado foram muitos: Galileu, perseguido e martirizado, por ter-se lembrado de falar sobre o movimento da Terra, coisa impossível, ideia louca; Genner com a sua vacina contra a varíola, que afirmaram pretender ele inocular a bestialidade no homem; Horácio Weiss, descobridor da anestesia, sofreu tantas perseguições que acabou se matando; em 1470 o Parlamento francês confiscou os primeiros livros impressos introduzidos em Paris. O povo considerava os tipógrafos e os impressores como bruxos, chegando a pedirem, em 1533, a supressão da imprensa; Dominico, foi morto na masmorra por ter demonstrado a significação do arco-íris; e vai por aí a fora.

 Disse Kardec: "A Ciência marchara com os homens, sem os homens e apesar dos homens".

 Os espíritos precisavam fazer saber aos encarnados de sua existência, e assim começaram a utilizar os médiuns de efeitos físicos para produzir os mais diversos tipos de fenômenos, tais como: ruídos (conhecidos como "raps"), materializações e desmaterializações, fenômenos de transporte, voz direta, etc.

 Os termos Espírita, Espiritualista e Espiritista correm lado a lado até que Allan Kardec definiu como sendo Espiritismo a doutrina dos espíritos codificada por ele (reencarnacionista), sendo então, espírita quem é sectário desta doutrina. Os norte-americanos e ingleses (não-reencarnacionistas) usam mais o termo Espiritualista ou Espiritista a as vezes Espírita.

 Na Europa e na América do Norte, Espiritismo significa principalmente intercambio com entidades desencarnadas; os princípios doutrinários não são objeto de interesse. As pessoas estão primariamente interessadas em obter consolações, alegrias, informações... e não em se modificarem.

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C R O N O L O G I A

 Socrates (470 - 399 a.C.), afirmava que os homens que viveram na Terra encontram-se após a morte e se reconhecem. Por pensar desta maneira, e difundir estas ideias, foi condenado a pena de beber cicuta (veneno);

 Platão (427 - 347 a.C), foi discípulo de Socrates e sua doutrina exerceu profunda influencia em toda a filosofia ocidental. Foi o fundador do espiritualismo;

 Pitagoras (570 - 496 a.C.) considerava que "a alma é a verdadeira substancia distinta do corpo, ao qual preexiste";

 Democrito (470 - 360? a.C.), um dos precursores da teoria atômica, estabelecia uma analogia entre a matéria e o Espírito.

Dizia que "A matéria e o Espírito são formados de átomos, no entanto, os átomos do espírito são mais sutis que os materiais e são chamados átomos de fogo"; Socrates afirmava que "a alma e a causa da vida do corpo; desde que esse principio animador o abandone, o corpo perece";

 ???? ** Várias passagens bíblicas assinalam fenômenos mediúnicos (ver no final o item Aspecto Religioso do Espiritismo).

 1520 ** Ruídos estranhos em Oppenheim, Alemanha, na casa de Melancthon.

 1650 ** Havia pesquisas com ectoplasma (Vaugham - filósofo) que o denominou de mercúrio, por óbvios motivos de censura impostos pela Igreja. Outros nomes para o ectoplasma: plasma, teleplasma e ideoplasma (ver mais a frente o item correspondente a ectoplasma).

 1661 ** Ruídos estranhos em Tedworth, Inglaterra, na casa de Mrs. Mompesson.

 1716 ** Ruídos estranhos em Epworth Vicarage, e veja mais adiante o caso das irmãs Fox.

 Isaac Newton (1642 - 1727) dizia que o Espírito nada mais é do que um corpo de luz não material.

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 1744 ** EMANUEL SWEDENBORG (Um precursor doutrinário do Espiritismo)

 Swedenborg (1688-1772), cientista, engenheiro de minas, autoridade em física e astronomia, zoologista, anatomista, financista, politico, estudioso da Bíblia, engenheiro militar e místico sueco foi quem, em 1744 afirmou ter recebido um aviso divino para se tornar "tanto um vidente quanto um anunciador da verdade espiritual e da doutrina que esta por trás do sentido simbólico e literal das "Sagradas Escrituras". Com a idade de 54 anos era um dos homens mais cultos de sua época, pois o então Presidente da Sociedade Real, sir Hans Sloan, convidou-o para membro honorário daquela sociedade. Em 1749 publicou em Londres sua obra "Arcana Coelistia", em 4 volumes, que expunham sua doutrina, as interpretações espirituais das Escrituras, especialmente do Gênese e do Êxodo. Há muita fantasia em seus escritos (muita gente supunha-o esquizofrênico), mas seu pensamento é sempre sistemático.

 As experiências citadas em seu diário, se ocorressem com um homem comum seriam suficientes para leva-lo ao hospício. Swedenborg conversava, ou pensava conversar com Lutero, Calvino, Santo Agostinho, São Paulo, inclusive afirmando que o próprio Senhor o teria visitado com o intuito de escolhe-lo para explicar a Bíblia ao mundo inteiro.

 Swedenborg não suportava a religião materialista. Acreditava que todas as religiões deviam estar relacionadas com a vida e pregar um amor ardente das pessoas. O inferno não era o local onde os pecadores sofreriam penas eternas, mas antes um estado de espírito que o fiel podia adotar livremente. Depois da morte, o individuo permanece mais ou menos como era antes: a personalidade não sofre uma mudança radical, e o mundo do além é uma replica do universo que vivemos. Dizia também que o mundo celeste corresponde em tudo ao humano, e até mesmo o casamento encontra um paralelo no matrimônio celeste das almas irmãs.

 Imanuel Kant, filósofo alemão (1724-1804), ocultou sua influência sob a zombaria do opúsculo "Sonhos do Vidente Espiritual". Goethe foi mais sincero em sua gratidão e seu "Fausto" esta repleto de alusões ao universo de Swedenborg, cuja doutrina abrangia três graus essenciais: Fim, Causa e Efeito. Afirmava ainda que a liberdade do homem permite que ele escolha e faça o bem. Ao morrer, o homem penetra no reino dos espíritos, de onde pode subir aos céus, ou descer ao inferno, tornando-se um demônio.

 Faleceu de uma sincope em Londres no dia 29 de março de 1772, com 84 anos de idade.

 No ano de 1788 foi fundada pelos seus adeptos, em Londres, a Igreja Nova Jerusalém, que hoje conta com cerca de 100 mil sectários pelo mundo.

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1830 ** EDWARD IRVING: os shakers

 Pertenceu a uma classe pobre de trabalhadores escoceses; nasceu em Annan, em 1792. Era cura de uma igreja e certos membros de sua congregação tinham sido tomados de maneira estranha em suas próprias residências e discretas manifestações ocorriam na sacristia e outros recintos, sendo o serviço da igreja as vezes interrompido por gritos de possessos, muitas vezes considerados com obras do diabo. Os fenômenos físicos começaram a surgir e tinham como finalidade despertar a atenção dos céticos.

 As comunidades dos shakers, nos E.U.A., ligados aos Quakers, começaram a dar vazão as comunicações, principiados por obsessões de vez em quando, de quase toda a comunidade. Vários espíritos de índios se comunicavam.

 Os shakers contavam com um homem de notável inteligência, chamado F.W. Evans, que relatou vários fatos ao jornal "New York Daily Graphic" em 1874 e depois da primeira perturbação física e mental, causada pelo aparecimento daqueles espíritos (algumas obsessões), pôs-se a estudar o verdadeiro significado das ocorrências. Chegou a conclusão de que o assunto poderia ser dividido em 3 fases. A primeira consistia em provar ao observador que a coisa era verdadeira. A segunda era a fase da instrução, na qual mesmo o mais humilde espírito pode trazer informações de sua própria experiência post-mortem. A terceira fase, dita missionária, era a sua aplicação prática.

 Os shakers chegaram a conclusão de que os índios não tinham vindo ensinar, mas aprender. Assim catequizaram-os como foi possível, exatamente como o teriam feito em vida (doutrinação). Por que espíritos mais elevados não cuidavam desse ensino? A resposta dada a Conan Doyle foi: "Essa gente está muito mais próxima de vocês do que de nós. Vocês podem alcançá-los onde nós não podemos".

 

Fonte: Boletim GEAE, 07(151), agosto 1995