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perispiritoReflexões Críticas sobre o Perispírito e sua Influência na Formação e Manutenção do Corpo Físico (Parte 1)

 

 Alexandre Fontes da Fonseca, Antonio C. L. Leite, Christiano Torchi 

1. Introdução 
  
Uma das questões mais importantes para a Ciência Espírita é o estudo das propriedades e funções do perispírito. A Ciência, que ainda não reconhece sua existência, muito se beneficiaria do estudo do perispírito no desenvolvimento de novos tratamentos para determinadas doenças e na orientação para uma vida mais saudável. Não somente a área médica teria grande proveito no conhecimento do corpo espiritual da criatura, mas as ciências exatas teriam nesse assunto uma área nova para pesquisar, sem embargo das profundas indagações filosóficas que o tema suscita, considerando que ele abre ao pesquisador um novo paradigma para o estudo da origem e da evolução dos seres vivos. 
  
O estudo do perispírito não está circunscrito apenas às Obras Básicas da Codificação. Estudiosos como o Dr. Hernani G. Andrade e Dr. Zalmino Zimmermann buscaram aprofundar esses conhecimentos, chegando o primeiro, por exemplo, a propor uma teoria ou modelo para o perispírito, denominado Modelo Organizador Biológico (MOB) [1,2]. Além disso, o Movimento Espírita conta com o trabalho profícuo de Zalmino Zimmermann que apresenta tudo, ou quase tudo, o que já foi estudado e pesquisado a respeito do perispírito [3], uma obra de inestimável valor cultural e científico, de leitura indispensável para todo e qualquer estudioso e pesquisador espírita e  mesmo não-espírita. 
  
Neste artigo, propomos um esclarecimento e uma abordagem adicional sobre a influência do perispírito na formação e manutenção do corpo físico do ser humano. Procuraremos estabelecer mais acuradamente, e de acordo com os avanços científicos atuais relacionados com o tema, o valor justo dessa influência em contrapartida aos fatores puramente materiais presentes nesses processos. Basicamente, desejamos mostrar que o perispírito não é um molde mecânico ou rígido do corpo físico, assim como se faz na fabricação de peças de metal ou gesso, nem que sua influência ocorre da mesma forma como no conhecido exemplo da limalha de ferro que se organiza de acordo com as linhas de campo de um ímã. Analisaremos diversas explicações sobre o assunto contidas nas Obras Básicas da Codificação e em outras obras espíritas, para mostrar que os processos de formação e manutenção do corpo físico ocorrem devido a uma interação harmoniosa entre forças puramente materiais e forças espirituais ou psíquicas. 
  
Na seção 2, exporemos trechos de A Gênese [4] relacionados com a ação do perispírito sobre a matéria. Na seção 3, analisaremos a idéia de molde associada ao perispírito e na seção 4, examinaremos o Modelo Organizador Biológico. Na seção 5, confrontaremos algumas citações espíritas a respeito da importância dos fatores puramente materiais nos processos de formação e manutenção do corpo físico. Na seção 6, apresentaremos uma proposta qualitativa para a influência do perispírito sobre o corpo físico. Na seção 7, resumiremos a discussão apresentada e tiraremos as conclusões. 
  
2. Ação do perispírito sobre a matéria
 

  
No item 17 do cap. XI de A Gênese [4], Kardec diz: 
    
Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo, faz parte integrante dele.” 
    
Mais adiante, nesse mesmo item, o Codificador acrescenta: 
    
Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.” 
    
É importante destacar a preocupação de Kardec em mostrar o Espírito como um ser que pudesse atuar e interagir com o corpo físico, pois, se isso fosse impossível, não poderíamos associar a responsabilidade de um Espírito aos seus atos como encarnado. Portanto, a possibilidade de influência do Espírito sobre a matéria, por meio do perispírito, é um ponto fundamental no Espiritismo. Resta-nos o trabalho de pesquisa sobre o como essa influência ocorre, o que repercutirá tanto na Ciência como um todo, quanto sobre nossa maneira individual de encarar a vida. Esse trabalho de investigação sobre o corpo espiritual não pertence somente ao Espiritismo e vem sendo realizado por diversas doutrinas e religiões ao longo dos tempos. Acreditamos que a Doutrina Espírita possui elementos para nos ajudar ainda mais no aprofundamento da questão, em ambos os aspectos, científico e filosófico, o que já vem ocorrendo, conforme se pode notar na obra Perispírito [3]. 
  
Ainda em A Gênese [4], (item 11 do cap. XI), Kardec frisa: 
            
Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito que modela o seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades; aperfeiçoa-o e lhe desenvolve e completa o organismo, à medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra, talha-o de acordo com a sua inteligência. Deus lhe fornece os materiais; cabe-lhe a ele empregá-los. É assim que as raças adiantadas têm um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aperfeiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e às linhas do corpo.” (Grifos em negrito, nossos). 
   
Inferimos do texto acima que o Espírito modela o corpo por meio do perispírito. Mas como se processaria esse modelamento? Essa é, talvez, uma das questões científicas mais importantes de nosso século, pois a resposta a ela pode significar uma demonstração, em termos dos conceitos das diversas ciências, da sobrevivência da alma. Sabemos, no entanto, o quão difícil ainda é acharmos uma resposta precisa para essa pergunta. Nosso objetivo aqui é procurar algumas pistas que possam ajudar a guiar futuros pesquisadores na busca pela resposta da questão acima. 
    
3. A idéia de molde 
  
A idéia de molde foi proposta por diversos estudiosos espíritas, desde a época de Kardec. Essa idéia consiste em propor que o perispírito é um molde para o corpo físico. O conceito de molde é o de algo que se utiliza para dar formas a um material inicialmente amorfo e maleável que, após secar ou esfriar, se torna rígido porém na forma proporcionada pelo molde. É importante destacar que o molde é completo no sentido de que nenhum outro fator externo é necessário para a formação do objeto. Seria o perispírito um molde no mesmo sentido? Neste tópico, vamos analisar essa questão.  
    
Gabriel Delanne, contemporâneo de Kardec, na obra O Espiritismo Perante a Ciência [5] afirma, categoricamente, à p. 246, cap. 2, 4a parte, que o perispírito é o esboço sobre o qual se modela o corpo humano. O mesmo autor, no livro A Evolução Anímica [6], obra de leitura indispensável, no cap. 1, p. 39, assevera que o perispírito 
    
contém o desenho prévio, a lei onipotente que servirá de regra inflexível ao novo organismo, e que lhe assinalará o lugar na escala morfológica, segundo o grau de sua evolução. É no embrião que se executa essa ação diretiva. (...). (Grifos em negritos, nossos).  
     
E no capítulo 4, à página 125-126: 
     
A indestrutibilidade e a estabilidade constitucional do perispírito fazem dele o conservador das formas orgânicas; graças a ele, compreendemos que os tecidos possam renovar-se, ocupando os novos o lugar exato dos antigos, e daí a manutenção da forma física, tanto interna como externa.” (Grifos em negrito, nossos). 
    
Ainda Delanne, em “O Fenômeno Espírita” [7], p. 174-175, insiste: 
   
Esse perispírito é o molde fluídico no qual se incorpora a matéria durante a vida. (Grifos em negrito, nossos). 
  
Léon Denis, fiel companheiro e continuador de Kardec, reporta-se ao perispírito como “forma fluídica original”, “esboço fluídico”; “regulador”; “mediador plástico”; “armadura invisível”, nos livros “Cristianismo e Espiritismo” [8] e “O Grande Enigma” [9]. 
A seu turno, Emmanuel esclarece, na obra “Roteiro” [10], p. 31, cap. 6: 
  
O perispírito é, ainda, corpo organizado que, representando o molde fundamental da existência para o homem, subsiste além do sepulcro, demorando-se na região que lhe é própria...” (Grifos em negrito, nossos). 

  
Essas colocações se baseiam em determinados fenômenos fisiológicos como a diferenciação das células no processo de crescimento do embrião, a regeneração de determinados tecidos e a manutenção da forma física. A idéia de molde é excelente para explicar esses fenômenos fisiológicos, contudo, podemos identificar algumas questões para as quais a idéia de molde não traz solução definitiva. 
    
Sabemos, pela Ciência, que os seres vivos seguiram um processo evolutivo a partir de seres mais simples em organização para seres mais complexos e ricos, culminando com o surgimento do ser humano. Kardec tinha conhecimento disso e no item 15 do cap. XI de A Gênese, assim se expressa: 
    
Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e o do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. Nada aí há de impossível, nem o que, se assim for, afete a dignidade do homem. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros Espíritos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem a encarnar na Terra, (...).” 
    
Porém, sabemos que esse processo evolutivo não ocorreu em dias ou meses, mas em milhares de anos. Qualquer melhoramento na raça humana se processou de modo muito mais lento do que a idéia de um molde rígido poderia sugerir. 
  
Uma outra questão que não pode se explicada pela idéia de molde advém da questão 356 de O Livro dos Espíritos [11]: 
    
356. Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de Espíritos ?
Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vêm por seus pais.” 
    
Se é possível que um corpo de bebê se forme sem a presença de um Espírito ligado àquele, então o que serviu de molde para ele? O perispírito da mãe não poderia ser um molde no sentido da palavra. Desse exemplo inferimos que talvez a idéia da influência do perispírito sobre o corpo físico não esteja bem representada pelo conceito de molde

Podemos citar, também, o caso Segismundo, presente no livro Missionários da Luz [12]. No capítulo 14, por exemplo, André Luiz narra a atuação dos “Construtores” (uma equipe de Espíritos responsável pela formação do novo feto) nos primeiros 21 dias após a ligação do perispírito de Segismundo ao embrião. Sem deixar de haver a influência do perispírito de Segismundo na formação do feto, os “Construtores” agem sobre as células em formação “para que a reencarnação, por vezes tão dificilmente projetada e elaborada, não venha a falhar, de início, por falta de colaboração de nosso plano, onde são tomados os compromissos”, disse o chefe dos “Construtores”. 

Se existe o risco de prejuízo no processo inicial de formação do feto a ponto de, em casos onde há merecimento, a Espiritualidade intervir para que nada dê errado, então concluímos que o perispírito, sozinho, não garante sucesso absoluto na formação do novo corpo. Isso nos mostra, mais uma vez, que a idéia de molde ainda é insuficiente para descrever, em caráter definitivo, a influência do perispírito sobre o corpo físico.  
   

Fonte: Boletim GEAE, 16 (531), 2007.